Mostrando postagens com marcador velejada noturna. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador velejada noturna. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de junho de 2014

Madrugada, través de Tutoia...


         Domingo, vivíamos as primeiras horas do dia primeiro do mês de Junho. Través de Tutoia. Depois da partida de São Luís, cada qual, assumia seu turno, os outros descansavam.

         Turno do cão é o termo náutico que denomina o espaço de tempo que um marinheiro tem que ficar de vigília na embarcação, responsável pelo barco e tripulação, geralmente entre as 2 e 4 horas da manhã. Nesse horário, muito provavelmente devido a nossa característica biológica, o cérebro utiliza para o sono profundo e reparador pois, temos hábitos diurnos. Por mais que estejamos descansados é a hora mais difícil, praticamente impossível não cochilar.

         “Toque-toque-toque”. Aos poucos fui despertando do sono leve que consegui ter. Fernando batia na gaiúta da cabine que eu pernoitava. Mesmo semidesperto, a comunicação era clara: chegara minha vez, era o meu turno. Para reforçar e certificar-se que havia despertado, chamou por mim completando com uma fisionomia nitidamente cansada: “Vá lá, é a sua vez.”

         Pedi-lhe alguns segundos para preparar-me. Vesti uma jaqueta. Por mais que estejamos numa latitude perto da linha do Equador, a noite, com o vento e ausência do sol, expostos aos elementos, sentimos frio.

         Tão logo assumi o leme verifiquei a tela do GPS. A rota traçada era muito próxima de terra, quase em colisão com pedras da entrada da barra de Tutoia. Aquilo deixou-me cabreiro. Indagava-me do porquê daquilo. Mantive o barco no rumo, como orientado, mas não conformava-me. Por que rumaríamos em direção à barra tendo a nosso bombordo (esquerda) um mar infinito e sem obstáculos e perigos à navegação?

         Aquela dúvida corroía-me interiormente. Alguma coisa estava errada. Não podia acatar uma orientação dessas sem questionar, era a vida de todos e a integridade do barco que estava em jogo. O que eu alegaria caso ocorresse um abalroamento? Aquilo deixava-me muito inquieto.

         Sabia que o Capitão Glauco jazia no sofá da cabine principal dormindo o sono dos justos, descansando de um turno longo por conta da responsabilidade inerente a ele a respeito da passagem pela barra da baía de São Marcos e os bancos de sua entrada. Sentia ter que despertá-lo, porém, o momento era oportuno, a situação, pra mim, estava começando a ficar tensa. Não podia mais calar. Com muito pesar, despertei Glauco. Na primeira tentativa, fiz de maneira tímida e não obtive êxito. Sabendo não haver outro jeito, chamei-o de forma mais eloquente, no que, prontamente e um pouco assustado respondeu levantando-se. Expliquei-lhe a situação e demonstrei minha hesitação. Explicou-me que devido aos currais de peixes, que ficavam a bombordo, devíamos, obrigatoriamente rumar por onde indicou através do GPS. Os currais são instalados na baixa-mar através de estacas verticais com redes, são uma armadilha primitiva e secular usadas pelos pescadores do nordeste brasileiro. O problema é que na maré alta os currais ficam semi submersos, invisíveis a olho nu e podem representar um grande perigo à navegação: o barco expõe suas obras vivas ficando vulnerável a esses obstáculos e isso pode causar um grande transtorno aos navegantes, desde um simples enrosco na hélice do motor até algo mais grave com o casco, ocasionando, em última instância um naufrágio.

         Sentindo que o momento requeria especial atenção, Glauco, prontamente chamou Luiz Henrique, o Saci, para reforçar a vigília. Do leme, o Capitão instruía-nos. Indicou que eu ficasse a bombordo de guarida em possíveis indícios de algum curral. Saci colocou-se defronte à luz de boreste (verde) do outro lado da embarcação, para não ofuscar nossas visões.

         O céu estava completamente limpo e nunca pude ver tantas estrelas em toda vida. Com o reforço dos dois experientes marinheiros, vi minha tensão baixar e o que no início era solitária preocupação, virara uma descontraída “caça aos currais”. Cheguei a usar uma lanterna em busca de nossos possíveis obstáculos, mas fui admoestado por Glauco sobre a inutilidade dela; comprovei na prática a orientação do Capitão. Ficamos na companhia um do outro até a passagem do ponto fatídico, cada qual em seu posto, em vigília permanente até afastar hipoteticamente o perigo. Ao final tudo correu bem e Glauco e Saci colocaram-se novamente a descansar.

Permaneci no turno, pois dali pra frente, com os fantasmas afastados, faria minha parte. Ainda com adrenalina correndo nas veias, foi muito mais fácil manter-se desperto. O que vi depois foi puro espetáculo. A partir daquela hora o sol, mansamente, haveria de nascer. No mar, tudo tem outro encanto, outra dimensão. Muito cedo, devido a ausência de montanhas ou outro obstáculo visual vertical, podemos presenciar o nascer do sol. Nenhum tipo de luz artificial ofusca sua presença precoce. O nascer e pôr do sol no mar, embarcado, é realmente algo especial e pontos fortes da navegação, não há quem passe ileso. E sucederam-se vários dias assim, cada qual um deleite, nunca repetindo-se, sempre um espetáculo à parte.

Acompanhe outros relatos sobre essa travessia cheia de belas experiências a bordo do catamarã Guina.

Abraços e bons ventos!

sábado, 21 de junho de 2014

A partida de São Luís


         Sábado, 31 de maio. Dia da partida. A tarde estávamos tranquilos pois, praticamente tudo estava acertado, alguns detalhes como cunhos extras de amarração foram instalados pelo Júnior como precaução, e foi só. Enquanto Fernando preocupava-se com isso, Norberto e eu sentíamos o clima receptivo dos associados da AVEN e sentamos numa mesa para ouvir um papo pra lá de animado e muitas histórias náuticas interessantíssimas, como uma de um casal que com seu pequeno catamarã de 28 pés desceu desde São Luís até a Bahia fundeando e conhecendo cada abrigo da costa nordestina. Também ouvimos muitas histórias, algumas hilariantes, de Sérgio e esposa, casal carismático responsável pelo estaleiro Bate Vento, fábrica dos catamarãs que habitam os sonhos de muitos velejadores. Como partiríamos num sábado muitos associados encontravam-se por lá, o clima portanto era muito amistoso e empolgante, sentíamos a curiosidade da maioria com nossa partida. Conversei ainda com um senhor chamado Jeferson, proprietário de um trimarã feito artesanalmente por ele mesmo batizado de Fuga e fez questão de desvendar-me vários aspectos de seu barco, inclusive o velame com a mestra içada através de uma espicha. Confidenciou-me também que fez uma longa temporada no Caribe como capitão de um veleiro demonstrando-me sua experiência e gosto por navegação.

         Com tudo pronto esperávamos pelo Capitão Glauco Vaz que acertava detalhes relativos à sua partida e ausência por pelo menos um mês, tempo estimado do delivery até o destino do Guina. Chegou com sua esposa e apresentou-lhe tripulantes e barco.

O Capitão apresentara-se, então, psicologicamente, todos sabiam que o momento de zarpar aproximara-se e pomo-nos todos na faina de desatracação. A euforia estava no ar e todos almejavam adentrar no “marzão de Meu Deus”, nas palavras de Luiz Henrique, o Saci. A expectativa e emoção tomaram conta da tripulação ao soltar as amarras da AVEN. Dali em diante sabíamos, estávamos todos expostos ao mar, não mais na segurança de um porto.

Nos afastamos da AVEN e partimos em direção à barra da baía de São Marcos. As luzes das avenidas e prédios de toda orla dos novos bairros de São Luís ainda davam aquela impressão de acolhimento que estávamos sentindo. Aos poucos nos distanciamos da capital e aqui e acolá passávamos por navios, vários, muitos, todos fundeados esperando a hora de atracar no movimentado porto de Itaqui. Quando deixamos o último navio pelo través de boreste sentimos internamente que a viagem realmente começara. As luzes da cidade, que nos causam uma sensação de calor e relativa segurança, ficavam para traz gradativamente.

Desabituados com a rotina a bordo, banzeiro e ruído do motor, a ansiedade deu lugar ao cansaço e nos pomos no cockpit a trocar algumas palavras e descansar, alguns trouxeram até travesseiros. A apreensão deu lugar ao sono coletivo, com exceção de Glauco que ficara no leme, de vigília, por causa dos grandes bancos de areia que formam-se na entrada da barra.

Ultrapassados os bancos, um a um, fazia seu turno. Essa seria nossa rotina daqui pra frente até o próximo porto: Fortaleza. Embora pareça, não havia monotonia e divertíamos contando causos e fazendo comida quando o mar permitia, quando não, atacávamos no estoque de trubiscos que tínhamos escolhido no mercado. O comandante de um turno exonerava-se quando chegava a hora, então colocava-se à disposição do novo oferecendo algo para comer ou beber e ajudar a mantê-lo em vigília, principalmente à noite, por pura cortesia e coleguismo, não estipulamos nada, ocorreu naturalmente.

Assim sucedeu-se a primeira noite a bordo em direção ao sul, durante quase toda a madrugada perpassamos os Lençóis Maranhenses, lugar ímpar no mundo que Glauco, aumentando nossa curiosidade, fez enaltecer explicando que a água de lá tem cor azul clara e é doce. Nos sentimos quase na obrigação de voltar um dia para conhecer essa preciosidade.

Acompanhe o desenrolar dessa travessia nas próximas postagens.


Abraços, bons ventos e até.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

E eu joguei âncora...


Velejada inaugural do veleiro Guina na baía de São Marcos em São Luís do Maranhão

         O mar mexido e a saudade de casa, muito provavelmente, foram as causas do meu abandono na segunda perna da travessia do Guina. Desembarquei em Recife, no Cabanga Iate Clube. Fernando questionou-me da decisão e, muito amistosamente, insistiu para que ficasse. Enquanto esperava meu voo de volta no aeroporto Gilberto Freire uma dúvida corroía-me: teria feito a melhor escolha?

Nos últimos dois dias, antes de chegar a Recife, o mar não colaborava e nenhum alimento parava em meu estômago, por conta disso, estava me sentindo fraco e também irritado, fora que também, nessa condição, dormir é praticamente impossível, apenas descansamos o corpo, o sono é interrompido pelas ondas que fazem questão de nos lembrar que não estamos no conforto de nossas casas, estamos no mar! Isso tudo é compreensível, estava fazendo parte de um delivery, não estávamos a passeio, o objetivo é levar o barco ao porto de destino o mais rápido possível. A passeio, as pernas podem ser mais curtas e, portanto, bem menos cansativas. Houve ainda outro agravante, desde que saímos de São Luís, os ventos restantes do que se chamam alíseos, vem de cara, e não é possível velejar, só motorar; 3 ou 4 dias motorando sem parar, contra o vento, não é nada romântico ou poético, o barco bate bastante pois seu comportamento sendo propulsionado só com os motores (são dois devido ao fato de ser um catamarã) é bem diferente da suavidade que as velas propiciam quando içadas em mar relativamente calmo, intensidade e direção de vento apropriados.

Tudo isso não pode ser usado como desculpa, fraquejei. Podia ter continuado, mas também minha falta de experiência pesou. Hoje, lendo sobre uma entrevista do Jornal Almanáutica entendi uma coisa que só quem viveu uma experiência como essa pode entender de forma profunda: fazer travessias em barcos à vela exige resistência de seus tripulantes. Agora compreendo isso. Essa resistência, muitas vezes, não é física, é mental! Devemos cuidar de não entediarmo-nos, pois um veleiro não ultrapassa os 10 nós, o que, equivale, em terra a 18 quilómetros por hora, aproximadamente. Os dias e noites passam como a vida passa quando estamos em contato íntimo com a natureza; é um outro ritmo, mais lento. Esse tempo que passamos no mar nunca é enfadonho, pois sempre há novidades e nunca um dia é igual ao outro, ainda mais que a condição climática muda o tempo todo e sempre estamos passando por um lugar diferente, especialmente em nosso caso, de uma navegada costeira, em que se pode muitas vezes, apreciar a costa.

Quero deixar registrado nosso profundo agradecimento ao Fernando Previdi, sua esposa Jamile, o Capitão Glauco Vaz, o grande marinheiro Luiz Henrique (Saci) e ao colega Norberto (Trovão). Se, por um lado, minha inexperiência e resistência não colaboraram, por outro, a convivência a bordo, a assertividade, camaradagem, amizade e respeito mútuo transformaram uma coisa muitas vezes penosa, em algo leve e divertido. O clima era dos melhores, cordialidade pura, uma equipe muito coesa. Incrível como somos capazes de trabalharmos de forma harmoniosa quando estamos no mar, não é preciso muito esforço no sentido da liderança, todos entendem seu papel e cada qual esforça-se em desempenhá-lo. É por isso também, que acabamos entendendo um pouco mais, dessa coisa misteriosa que é a comunidade náutica. Pessoas que quando interligadas pelo mar, criam laços profundos, pois a consciência mútua de que somos pequeninos e frágeis diante da força incomensurável do mar derruba qualquer resquício de vaidade e ego. A camaradagem passa a dominar a pauta principal. O senso de segurança mútuo fala mais alto que tudo; um cuida do outro. Passei a considerar meus colegas tripulantes como a entes da família, mesmo só tendo os conhecido alguns dias antes. Uma experiência tremendamente transformadora que recomendo a qualquer um aspirante de crescimento pessoal e espiritual.

Depois dessa elucubração, postarei, aos poucos, os dias instigantes que vivi desde São Luís até Recife a bordo do Guina e sua especial tripulação.

Agradeço àquelas pessoas que nos acompanharam, e ainda estão acompanhando, pois a viagem ainda não terminou, e deixo o pensamento do Hélio Viana: “Depois que a cobra d’água lhe morde, meu amigo, não tem mais volta!”


Grande abraço da nossa família à sua, bons ventos e mares desde nosso recanto ecológico chamado baía Babitonga!


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Surpresas que a vida guarda


         Minha chegada à São Luís foi tranquila, porém, demorada e cansativa por conta de duas conexões de voo, uma em São Paulo, outra em Belo Horizonte. Embarquei em Joinville as 15 horas da quarta e cheguei as 2 horas da manhã da quinta-feira na capital maranhense, dia 29 de maio.

         No que restou da noite, dormi no hotel e aguardaria Fernando depois do café da manhã para conhecer-lhe e o seu barco. Conhecíamos um ao outro por mensagens em rede social, fóruns náuticos e por nossos blogs, ainda não havíamos nos encontrado presencialmente. Nossa família sempre acompanhou a história da família Previdi e achávamos muito interessante.

         Uma semana atrás eu mandei uma mensagem ao Fernando explicitando que cogitava a venda de nosso barquinho. Ele respondeu educadamente e ficou de avisar caso alguém estivesse interessado. No outro dia me respondeu à mesma mensagem perguntando “na lata” se eu não toparia trazer o Guina de São Luís até o litoral de São Paulo. Na hora achei educado e lhe respondi que pensaria pois achava a ideia um pouco distante da realidade. Havíamos combinado com o Ricardo Yoshima e família de fazer a perna Itajaí/São Francisco do Sul abordo do Amar sem Fim quando da passagem deles pela Babitonga, mas a saída deles da Argentina atrasou por questões burocráticas e ficamos esperando, então surgiu a proposta do Fernando.

         Em nossas conversas em família a Luciane sugeriu que vendêssemos o Hoje! e esperássemos, quanto tempo fosse necessário, até encontrar um barco que atendesse nossos anseios, pois cogitamos, a exemplo dessas famílias, uma embarcação para ser nossa morada flutuante. Eu, com certo apego ao barquinho, justificava, adiando esse momento tanto quanto necessário. Quando decidimos que era realmente essa vida a que almejávamos, então considerei a ideia da venda. Tinha em mente que em 6 meses venderia nosso barco. Antes de anuncia-lo publicamente mandei mensagens à pessoas que considerava, podiam conhecer alguém interessado, mas, confesso, não esperava mais do que mensagens educadas de retorno. Qual não foi minha surpresa, apenas dois dias depois de mandar a mensagem ao Juca ele retornou com uma resposta de um amigo, aluno de um de seus cursos. O barco está vendido e a compra foi feita basicamente pela internet, pois também não conheço o Júlio pessoalmente e ele quis logo ficar com nosso barquinho mesmo sem vê-lo previamente. Nós vamos passar o Hoje! de mãos com alegria e felicidade, pois ele cumpriu sua missão e foi além, ajudou na certeza de embarcar nesse mundo, que, escrevendo agora abordo do Guina no través de Acaraú/CE, não tem segredo nenhum.

         Como uma trama as histórias vão interligando-se e nossa vida vai tomando o rumo que adotamos. Fazemos contatos com pessoas que também buscam pelos mesmos anseios e misteriosamente as peças do quebra-cabeça vão encaixando-se com exatidão e perfeição incríveis, algo sequer sonhado ou imaginado.

         Grande abraço de toda a tripulação do Guina, bons ventos desde o litoral do Ceará!


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Navegando e aprendendo

         A latitude é de 2º ao sul em relação a linha imaginária do Equador, longitude 44º a oeste da linha imaginária que tem a cidade de Greenwich, na Inglaterra, como parâmetro.

         A convite do Fernando Previdi, voei de Joinville, maior cidade do estado de Santa Catarina, que fica ao lado da ilha de São Francisco do Sul, até essa outra ilha chamada São Luís, maior cidade e capital do estado do Maranhão.

         Nesse exato momento estamos eu, Fernando Previdi, Comandante Glauco Vaz e o pessoal do estaleiro provisionando o Guina, um portentoso e imponente catamarã de 47 pés, construído aqui em São Luís. A capital do estado do Maranhão tem essa fama entre os amantes da navegação muito provavelmente devido a uma característica peculiar da região: a amplitude de maré pode chegar a 8 metros. Para a navegação amadora isso se torna um problema, pois nos locais mais abrigados e menos profundos as embarcações hora estão flutuando com a maré alta, hora estão no seco. A maioria dos veleiros oceânicos são mono cascos com quilha fixa. Esses barcos sofrem um bocado aqui, a cada maré seca inclinam (adernam) e assim permanecem até a maré subir novamente normalizando a situação. Teoricamente, e a longo prazo,  isso pode causar algum dano ao barco, por esse motivo, os amantes da navegação que aqui residem acabaram resolvendo o problema optando por catamarãs e os estaleiros adaptaram-se a esse mercado resultando na fama justificada.



         O objetivo é claro: descermos com o Guina até o litoral de São Paulo.

         Faremos várias pernas para a conclusão do delivery, são elas:

São Luís/MAFortaleza/CE
Fortaleza/CERecife/PE
Recife/PESalvador/BA
Salvador/BAVitória/ES
Vitória/ESAngra/Paraty/RJ/Ilhabela/SP

A Almiranta gostaria muito de participar dessa empreitada mas, minha sogra não pôde ficar cuidando das crianças e então Luciane embarcará nas últimas pernas. Estarei ausente na data do aniversário dela e na de aniversário de nosso namoro e mesmo com saudades um do outro e das crianças, não vamos pestanejar, a hora é essa, o Mar nos chama, a aula vai começar!

Narrarei através de relatos e fotos essa jornada pela costa brasileira e agradecemos de antemão ao Fernando e família pelo privilégio em compor a tripulação da viagem inaugural do Guina.


Abraços desde a baía de São Marcos!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Spinelli pelas águas da Babitonga


Esta semana, vindo de Itajaí, chegou Spinelli a bordo de seu veleiro Soneca. Tio Spinelli, como gosta de ser chamado, é um experiente mergulhador e professor e seu interesse por embarcações começou por causa dessa atividade. Capitão Amador pela Marinha do Brasil desde 1982, teve como colega de turma para a graduação, Amyr Klink. Construtor amador, seu primeiro barco foi uma traineira que reencontrou, saudoso, em Joinville. O veleiro viria um pouco depois, pois sua construção demandaria 11 anos.

Foi uma semana aportado pelas águas da Babitonga. Logo que chegou, jogou o ferro em frente ao Centro Histórico de São Francisco do Sul onde acontecia a Festilha (Festa das Tradições da Ilha). O cansaço era tamanho, depois de doze horas navegando entre Itajaí e nossa ilha, que tão logo chegou, preparou seu almoço, comeu e simplesmente despencou em seu beliche de popa sem nos ouvir chamá-lo logo depois. Até cogitamos sua ausência no barco, mas o bote de apoio confirmava o contrário.

No outro dia combinamos de nos encontrar no Museu Nacional do Mar, que fica quase ao lado de onde estava fundeado. Ele viria com o barco e nós por terra. Jogou o ferro pela proa e amarramos a popa no cais. Depois, por causa do movimento de embarcações, a âncora garrou um pouco, o suficiente para a popa encostar no cais danificando um pouco o leme de vento. Spinelli ficou um pouco apreensivo mas eu o tranquilizei dizendo que em Joinville faria o reparo pois é uma cidade fabril, voltada à mecânica.

Em Joinville pôde ajudar quatro jovens marinheiros que trabalham em iates a entender melhor as matérias para o prova de Capitão. Eles pediram ajuda a ele logo que chegou, pois não haviam conseguido passar na primeira prova. Spinelli então ficou um pouco mais em Joinville motivado pelas aulas que lecionou em troca apenas de quantas diárias fossem necessárias a sua permanência. Nesse ínterim fez o reparo no leme de vento e ficou de olho na previsão do tempo, esperando o melhor momento de zarpar.

Pedi a ele que passasse por aqui, no Capri, antes de zarpar definitivamente em direção a Santos, última escala antes de retornar ao seu porto, o Saco da Ribeira, Ubatuba, litoral norte do estado de São Paulo.

Cesar ficou de prontidão no Capri aguardando a chegada de Spinelli vindo de Joinville. Veio a motor devido a ausência de vento. Os dois trocaram muitas figurinhas, ainda não conheciam-se. Comemos uma pizza à noite e jogamos muita conversa fora, com os assuntos todos variando, mas girando sempre em torno da Vela. Fato inusitado é que não bebo, ou quando o faço, é uma quantidade irrisória, Cesar e Spinelli também não. O dono da pizzaria, por cortesia, me serviu uma cerveja Opa, feita artesanalmente em Joinville. Estava até engraçado, eu, o único a beber na mesa. Dessa forma, pudemos conhecer melhor Spinelli, pessoa muito educada, que nos deu um banho de experiências inusitadas, como uma viagem que fez à Cuba para mergulhar, e muita informação pertinente a respeito de barcos e náutica.

Foi uma semana na baía Babitonga que nos rendeu uma ótima visita e, acredito, deve ter lhe propiciado uma agradável vivência. Ficamos muito felizes de recebê-lo por nossas águas e espero que tenha gostado tanto quanto nós.


É com esse espírito que nos despedimos desejando bons ventos, até a próxima!


Requisitei a ajuda de motonautas para acordar Spinelli, o que, não foi possível



Soneca atracado no Museu Nacional do Mar


Últimos acertos


Esperando a hora exata da maré vazar




Muitos alimentos selecionados por sua esposa especialmente para essa viagem


Esse é o Spot, que mostra a posição do navegador para quem fica em terra



Saída pelo Canal Iriri


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Velejada Noturna

                Essa é a segunda parte da postagem anterior Passeio, Aventura & Emoção, caso esteja lendo aqui primeiro, comece lá.

            Depois de deixar Fabiane e Esli no Centro Histórico, flutuante do restaurante Portela, zarpamos, eu e Saraiva, rumo ao Capri, não podíamos perder tempo. Tanque cheio, retornaríamos com folga.

            2013-11-15 ► 17h30min. Era certa nossa chegada à noite. Zarpamos no motor, pois o vento e ondas ainda eram contrários, com sorte, amainaram um pouco, o que, facilitou a navegada e também a tornou mais confortável. O retorno, sem romantismo, não seria à vela.

            A noite caía devagar. Motor em aceleração moderada, funcionava perfeitamente. Estávamos na metade do caminho, com o porto de Itapoá no través de bombordo, e motor deu uma engasgada, coisa rápida; voltou ao normal. Entre olhamo-nos e, fingindo nada acontecer, continuamos. Mais alguns minutos e desligou completamente...

            Correria. Tiramos as velas do interior e iniciamos uma faina apressada. Em pouco tempo, derivaríamos. No través de boreste um enorme banco de areia e logo, se nossos procedimentos não fossem feitos com exatidão, o conheceríamos; encalharíamos. A esta hora, o sol, jazia. Abrimos a buja e tentamos encaixar o Hoje! no contra vento sem muito sucesso. Seria necessária a mestra devido ao vento ameno. Subimos a mestra e algumas rajadas nos impulsionaram, afastando o temor do encalhe na coroa. Como que por encomenda, Eolo, nos mandou algumas rajadas mais caprichadas. Por precaução, rizamos a mestra na primeira forra. Adernados, desenvolvemos maior velocidade. Em um bordo chegamos bem perto do porto de Itapoá, e assim sucedeu-se, com alguns bordos até alcançarmos a entrada do canal do Iriri, no Capri.


Porto de Itapoá visto de nosso barquinho adernado


Eu e Saraiva vivenciando a primeira velejada noturna

            Saraiva, habilidosamente, fez a entrada no canal passando bem ao centro, distante das bóias, que não são iluminadas. Uma vez lá dentro desviamos de alguns barcos de pesca ziguezagueando entre eles. Os pescadores disparavam flashes de suas lanternas sinalizando sua posição para demonstrarem sua presença. Quando passávamos por eles, davam “gritinhos” como que cumprimentando e comemorando as manobras. Assim, contra o vento, de bordo em bordo, fomos chegando ao flutuante do Hoje!, mais ao fundo. Quando do último bordo, com o vento fraco, encalhamos. Ainda tentamos fazer um contra bordo, mas seria inútil.

            Estávamos cansados, não havia ninguém por perto para auxiliar. O flutuante ficava há algumas braçadas. Saraiva preparava-se para nadar até uma bateira próxima, quando ouvimos pelo rádio o pessoal do Capri Iate Clube conversando entre si. O rádio! Esquecêramos de usar o rádio do barco! Contato feito, Donato, marinheiro do clube, encosta em nossa popa. Que mão na roda... digo, vela! Fez nosso embarque providencial no flutuante. Agradecemos. Despedi-me do Saraiva e voltei com pressa para casa, preocupado com a Luciane e as crianças, que já sabiam de tudo, pois acompanhavam a aventura via celular. No outro dia voltaríamos para recolocar o Hoje! em seu lugarzinho.

            Obrigado a Fabiane e Esli, ao Saraiva pela aventura, à Luciane, novamente pacienciosa e às pessoas coadjuvantes na história,  sem as quais, nada disso seria possível.

            Sinto que toda vez que saio para o mar em nosso barquinho, aperto o botão de turbo na aprendizagem da vida. Incrível quantas coisas são possíveis de vivenciar e aprender num barco à vela. Tudo está acontecendo muito rápido e pude, muito antes do que imaginei, velejar à noite. Experiência ímpar! Um misto de mistério, emoção e paz.

            É com esses sentimentos que me despeço, almejando a você bons ventos e que atraque a um porto seguro depois de uma velejada vitoriosa!


            Abraços desde a Babitonga.