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quarta-feira, 18 de junho de 2014

A preparação em São Luís


         Havia chegado as 2 horas da manhã em São Luís. No avião fiz amizade com um senhor bacana, dono de uma loja de suprimentos para restaurantes em Itajaí, irmão de um político famoso de Santa Catarina, conhecedor de São Luís e casado com uma maranhense. Pousei na capital sentindo-me em casa. Dividi o táxi com ele, pois o mesmo iria adiante do hotel onde eu pernoitaria.

         No check in do hotel avisei da minha chegada ao Fernando pelo telefone.  Muito cortês, insistiu que eu acordasse um pouco mais tarde, fizesse um bom desjejum e então ele passaria para apanhar-me para mostrar o barco e apresentar-me aos envolvidos. Pude descansar da viagem e, devido a ansiedade, dormi o suficiente até perceber que os primeiros raios solares entravam tímidos pelas brechas das cortinas. Do corredor pude ter uma primeira impressão de São Luís e a visão da baía de São Marcos, era o que a janela permitia com alguns prédios esparsos atrapalhando a paisagem. O mar estava ali, desde sempre, esse era o foco. Tomei um café da manhã caprichado e esperei no saguão. Um rapaz que trabalha no estaleiro apanhou-me e nos encaminhamos à Ponta D’areia, bairro onde localiza-se a AVEN (Associação de Vela e Esportes Náuticos do Maranhão). Lá pude sentir a atmosfera do lugar e logo “de cara” observei vários catamarãs devidamente atracados. Difícil encontrar, acredito, na américa do sul, lugar como São Luís nesse sentido, praticamente todos os veleiros são catamarãs.

         Pude conhecer Fernando pessoalmente, coisa que até o momento não havia ocorrido. No meio de toda a correria e bagunça nos cumprimentamos, apresentou-me a todos presentes e foi logo esmiuçando tudo a respeito do barco. Demorei um pouco até me situar. A primeira impressão foi de estupefação dado o tamanho do barco, através das fotos não se tem ideia, é um enorme catamarã de cruzeiro, com 4 espaçosas cabines, das quais, 2 suítes, feito para 8 ou mais pessoas pernoitarem com conforto.

         Sexta-feira, 30 de maio. A previsão de partida era sábado, dia 31, à noite. A bagunça a bordo não estimulava muito e fazia crer nossa saída tardaria mais alguns dias. Muitas peças importantes como moitões, catracas, stoppers, etc., indispensáveis num veleiro, jaziam em caixas de papelão e por onde houvesse um lugar passível de serem reconhecidas. Fernando, muito confiante, encaminhava cada qual à uma atividade na ânsia de por ordem ao caos. Queria cumprir o prazo e para mantê-lo punha todos os envolvidos a trabalho. Cada qual ajudou no que pôde e, aos poucos, a coisa foi andando a contento. O clima era de muito otimismo e o pessoal sentia que era o momento de dar um passo adiante. A sinergia foi tomando forma e o que parecia o caos, gradativamente dava indícios de uma ordem. Todos trabalhando num objetivo só: preparar o Guina para a descida da costa em direção à Paraty. Os personagens dessa trama vão apresentando-se e mostrando-se muito entusiasmados, ninguém parecia trabalhar, estávamos envolvidos numa atividade lúdica. Muitas brincadeiras para que enturmássemos, nessa fase, três pessoas chave contribuiriam para os toques finais indispensáveis à zarpada: Nelson; o eletricista, Cebola; o faz tudo, e Júnior; o instalador. Nelson, um cara muito concentrado, já trabalhou embarcado, profissional gabaritado da elétrica/eletrônica náutica passou um dia inteiro instalando tudo quanto fosse possível e deixou o Fernando muito feliz e mais relaxado quando da conclusão de seu serviço. O Cebola trabalhava no estaleiro, até limpou o fundo do barco para aprontá-lo para o grande dia. Júnior, dono de um senso de humor ímpar, é daqueles caras que quando sentam no roda de bar, dá um espetáculo à parte na contação de seus causos ocasionando dores abdominais em seus ouvintes. Habilidoso na instalação de diversos itens, foi responsável pelas peças inerentes ao funcionamento e regulagens do aparelho do velame. O clima era tão bom que Fernando reiterava convites a eles para nos acompanhar até Fortaleza, primeira parada.

         Na hora do almoço pude conhecer as singelas instalações do refeitório da AVEN e Dona Roxa, como carinhosamente é apelidada, fez um saboroso almoço, e assim, pude experimentar um pouco do tempero e paladar ludovicense. No outro dia ela serviria camarões enormes envoltos em delicioso molho de sua autoria. Solícita, sempre nos servia de alguma coisa feita com esmero. Confidenciou-me, orgulhosa, que era a mãe de Fernando em São Luís; estávamos em casa, sentimo-nos como filhos.

         O trabalho continua e todo esse acolhimento teria um fim, infelizmente, mas, como um ciclo que termina, encaminhávamos para a conclusão de todos os ajustes, pois Fernando estipulava: a primeira velejada seria amanhã de manhã, com a maré apropriada!

         Acompanhe o desenrolar dessa bonita história na próxima postagem.


         Grande abraço e bons ventos!


Capitão Glauco determinava: “Enquanto tudo não estiver pronto, não zarparemos.”


MARINA AVEN, Associação de Vela e Esportes Náuticos do Maranhão


AQUI se aprende a navegar


Glauco prepara a cadeirinha para Nelson


Nelson instala o piloto de vento


A vinte metros do convés


Júnior, o contador de causos


Fernando, Nelson, Dona Roxa, Cebola e eu


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Spinelli pelas águas da Babitonga


Esta semana, vindo de Itajaí, chegou Spinelli a bordo de seu veleiro Soneca. Tio Spinelli, como gosta de ser chamado, é um experiente mergulhador e professor e seu interesse por embarcações começou por causa dessa atividade. Capitão Amador pela Marinha do Brasil desde 1982, teve como colega de turma para a graduação, Amyr Klink. Construtor amador, seu primeiro barco foi uma traineira que reencontrou, saudoso, em Joinville. O veleiro viria um pouco depois, pois sua construção demandaria 11 anos.

Foi uma semana aportado pelas águas da Babitonga. Logo que chegou, jogou o ferro em frente ao Centro Histórico de São Francisco do Sul onde acontecia a Festilha (Festa das Tradições da Ilha). O cansaço era tamanho, depois de doze horas navegando entre Itajaí e nossa ilha, que tão logo chegou, preparou seu almoço, comeu e simplesmente despencou em seu beliche de popa sem nos ouvir chamá-lo logo depois. Até cogitamos sua ausência no barco, mas o bote de apoio confirmava o contrário.

No outro dia combinamos de nos encontrar no Museu Nacional do Mar, que fica quase ao lado de onde estava fundeado. Ele viria com o barco e nós por terra. Jogou o ferro pela proa e amarramos a popa no cais. Depois, por causa do movimento de embarcações, a âncora garrou um pouco, o suficiente para a popa encostar no cais danificando um pouco o leme de vento. Spinelli ficou um pouco apreensivo mas eu o tranquilizei dizendo que em Joinville faria o reparo pois é uma cidade fabril, voltada à mecânica.

Em Joinville pôde ajudar quatro jovens marinheiros que trabalham em iates a entender melhor as matérias para o prova de Capitão. Eles pediram ajuda a ele logo que chegou, pois não haviam conseguido passar na primeira prova. Spinelli então ficou um pouco mais em Joinville motivado pelas aulas que lecionou em troca apenas de quantas diárias fossem necessárias a sua permanência. Nesse ínterim fez o reparo no leme de vento e ficou de olho na previsão do tempo, esperando o melhor momento de zarpar.

Pedi a ele que passasse por aqui, no Capri, antes de zarpar definitivamente em direção a Santos, última escala antes de retornar ao seu porto, o Saco da Ribeira, Ubatuba, litoral norte do estado de São Paulo.

Cesar ficou de prontidão no Capri aguardando a chegada de Spinelli vindo de Joinville. Veio a motor devido a ausência de vento. Os dois trocaram muitas figurinhas, ainda não conheciam-se. Comemos uma pizza à noite e jogamos muita conversa fora, com os assuntos todos variando, mas girando sempre em torno da Vela. Fato inusitado é que não bebo, ou quando o faço, é uma quantidade irrisória, Cesar e Spinelli também não. O dono da pizzaria, por cortesia, me serviu uma cerveja Opa, feita artesanalmente em Joinville. Estava até engraçado, eu, o único a beber na mesa. Dessa forma, pudemos conhecer melhor Spinelli, pessoa muito educada, que nos deu um banho de experiências inusitadas, como uma viagem que fez à Cuba para mergulhar, e muita informação pertinente a respeito de barcos e náutica.

Foi uma semana na baía Babitonga que nos rendeu uma ótima visita e, acredito, deve ter lhe propiciado uma agradável vivência. Ficamos muito felizes de recebê-lo por nossas águas e espero que tenha gostado tanto quanto nós.


É com esse espírito que nos despedimos desejando bons ventos, até a próxima!


Requisitei a ajuda de motonautas para acordar Spinelli, o que, não foi possível



Soneca atracado no Museu Nacional do Mar


Últimos acertos


Esperando a hora exata da maré vazar




Muitos alimentos selecionados por sua esposa especialmente para essa viagem


Esse é o Spot, que mostra a posição do navegador para quem fica em terra



Saída pelo Canal Iriri


domingo, 6 de abril de 2014

Elas Chegaram!

- Como faço pra chegar aí? – Perguntava Roberto ao telefone ao meio dia.

         Eu explicava e ele tomava nota. No meio da tarde chegaram Roberto e Gorete de motocicleta vindos de Florianópolis, 200 quilómetros daqui. Usaram as velas como pretexto para passear de moto, revisitar São Francisco do Sul e nos fazer uma agradável visita surpresa.

         É domingo e depois do almoço nem as padarias (a maioria) ficam abertas, com isso não pudemos oferecer pães frescos, problema esse rapidamente solucionado com pães integrais de forma e um providencial café passado na hora.

         Abrimos as velas no quintal e pude, a pedido de Roberto, constatar o serviço. A tão esperada Genoa (vela da frente) ficou bem diferente em seu novo formato, especialmente moldada para o Hoje! As outras duas velas originais foram renovadas com reforços em locais estratégicos. A nova Genoa é içada à moda antiga, ou seja, através de garrunchos. Acho esse sistema mais vantajoso, pois, acredito, polpa a vela de intempéries. Aposentaremos o enrolador e por isso pedi ao Roberto que instalasse garrunchos na Buja (vela menor da frente).


Victor, Rico, Luciane, Gorete e Roberto

         O material está pronto. Agora é conter a ansiedade, fazer uma análise meteorológica, conferir a tábua das marés e marcar uma saída para experimentar o comportamento do nosso barquinho.

         E viva o trabalho marinheiro!


         Bons ventos desde a Babitonga!



quinta-feira, 27 de março de 2014

Primeiro Ano de Vida Náutica!


         Há um ano atrás exatamente, chegávamos por terra de Florianópolis com o então Carioca. A ideia era trazer o barquinho navegando mas alguns empecilhos apresentavam-se. Ele estava parado havia dois anos sem manutenção básica. O jeito foi retirar o mastro, colocá-lo num caminhão e encarar 200 km de rodovia com o peixe fora d’água.

         Curiosa a expressão das pessoas assistindo a cena do transporte. Um veleiro é realmente algo muito desengonçado fora do elemento para o qual foi criado, principalmente quando é dotado de uma quilha falsa fixa, parecendo uma barbatana de tubarão invertida. Ela só faz sentido quando o barco veleja pois sua função é equilibrá-lo quando todos os panos estiverem em cima. Sem essa quilha o barco, num vento mais forte, capotaria com relativa facilidade. Veleiros com quilha falsa fixa (são a maioria) têm sempre carretas de encalhe mais desengonçadas que os próprios. Como na vida não podemos ter tudo é preciso aprender a conviver com os prós e contras de cada barco.

         Marquei as 6 horas da manhã com o Irã, responsável pelo transporte, no posto de combustível da entrada de São Francisco do Sul. Saímos com o caminhão com destino à capital catarinense. A viagem e translado correram tranquilamente. Irã foi o tempo todo muito atencioso e dedicado ajudando em tudo que pôde. Seu caminhão tem uma rampa comprida para até dois carros ou um barco de até 30 pés. Prova de sua paciência foi que quando chegamos com o barco no Capri não sabíamos exatamente onde deixaríamos o Hoje! e ele esperou conosco a resolução desse impasse. Recomendamos o serviço do Irã.

         Antes de chegar ao Capri com nosso barco havia conversado com Sr. Adenir, proprietário da Marina Arco-íris sobre nossa intenção. Ele disse só haver restrições quanto ao calado quando quiséssemos recoloca-lo n’água. Quando chegamos ele nos viu e o barco e atônito fez uma expressão facial como: “E não é que vocês vieram mesmo?!” Tratou logo de nos apresentar ao Sr. Nestor, mecânico antigo do Capri, pedindo a ele para arrumar um lugarzinho para o Hoje! Nestor, um cara batuta, apontou o lugar e nos mostrou o barco do Fabrício, explicando tratar-se de caso análogo. Ficamos felizes pois, além de um barco, teríamos uma turma para compartilhar experiências.


         A partir de então nossa rotina seria ajustar alguns detalhes para o relançamento do Hoje! n’água, que aconteceria 3 meses depois. Enquanto isso a convivência com o pessoal do Capri foi muito agradável e produtiva. Conhecemos depois o Cesar e também o Marcelo, esse nos convidando para velejar nos seu Talhamar por puro coleguismo querendo nos mostrar as belezas do mundo da Vela e aquele dando valiosas contribuições e pondo a mão na massa, literalmente, para ensinar-me vários segredos e ensinamentos sobre mecânica e navegação, sendo sua ajuda, como já citei por aqui outras vezes; inestimável.


         Foi um ano de um divertido e profundo aprendizado estreitando nossos laços familiares e da nossa família com o Mar. Conhecemos pessoas singulares que de outra forma não conheceríamos. Quando assumimos a responsabilidade de adotar o Hoje! havíamos nos comprometido em conhecer e desvendar os segredos e mistérios desse elemento que habita nossos sonhos e emoções mais profundos.


         Que os mares lhe sejam gentis e os ventos constantes, nos encontramos na próxima ancoragem. São nossos votos nesse primeiro ano de vida náutica da Família Ville Floriani!


sexta-feira, 14 de março de 2014

Últimos Acertos!

Depois de não tão breve período, nosso barquinho volta a receber o cuidado e atenção necessários. Como já comentado antes, era a vez de guarnecermos o Hoje! com uma vela nova. Ele possuía o que os ingleses denominam working sail, ou seja, duas velas básicas, o jogo de serviço; mestra e bujarrona.

Com o passar do tempo notou-se, através da prática, que os veleiros necessitavam de uma vela mais longa quando o vento não era tão forte, e, assim, foi criada a Genoa. A genoa é mais longa que a Buja, ela ultrapassa a linha do mastro chegando até a metade da retranca, por isso ela também é sempre mencionada utilizando-se porcentagem. A genoa pode ser 125%, 150%. 100% equivale a buja, ou seja, o tamanho exato do triângulo hipotético que temos entre o mastro, convés e estai de proa. Quando esse triângulo é expandido temos então uma genoa que pode variar de tamanho de acordo com o que queremos extrair do barco. Uma genoa 150% equivale então a uma buja e meia no comprimento da esteira. Quanto maior a genoa, em tese, menor o vento. Maior área vélica é uma grandeza proporcionalmente inversa à quantidade de vento. E quando temos ventos muito suaves podemos utilizar as velas maiores; balão, spinnaker, gennaker, etc.

            Um enxoval numeroso de velas só se justifica em caso de regatas, pois os cruzeiristas satisfazem-se com o jogo de serviço mais uma vela opcional, geralmente uma genoa. Como nossa família almeja, em primeira instância, o cruzeiro despretensioso, estamos assim, completando nosso jogo de velas que, teoricamente, pode nos levar a qualquer parte do globo.

            Antes do Hoje! pertencer à nossa família, conheci o Roberto, neto e filho de velejadores. Seu avô trabalhava no histórico estaleiro Arataca de Florianópolis. Conversamos bastante via e-mail e telefone. Por causa dele iniciei a construção de um Tiki 26, catamarã rústico e rápido de cruzeiro. Rogério Martin, inspirado pelo conhecimento de Roberto em catamarãs, resolveu construir um belo Tiki 30. Logo no início da construção julguei impossível a continuação por falta de um local adequado e também fazendo e refazendo cálculos descobri ser mais barato um barco usado. Essa foi minha conclusão, porém, um catamarã sempre custará mais que um monocasco de igual comprimento e estado de conservação.

            Quando nos decidimos pelo Hoje! ele encontrava-se no ICSC (Veleiros da Ilha). A ideia inicial era trazê-lo pelo mar, mas vários fatores orientavam e, finalmente, obrigaram a vinda por terra, coisa que fiz, um pouco contrariado, desejoso que estava de uma primeira experiência numa navegada costeira, e ela seria feita pelo Roberto mais um amigo, eu seria um tripulante.

            Como sabia que Roberto constrói e faz reparos em barcos e velas, já sabia quem faria a tão esperada genoa do Hoje! Semana passada tive o prazer de conhece-lo pessoalmente em seu Estaleiro Artesanal, sua oficina, que fica na parte norte da ilha de Florianópolis; Ponta das Canas. Mostrou-me então uma vela que tinha guardada há tempo, feita em dracon importado. Já era quase certa a negociação, só restando o corte e ajuste, visto que fora confeccionada para um barco maior; 26/27 pés (nosso barco mede 23 pés).


A vela inteira, sem modificações. Cesar simula como a vela deverá ficar.

            Agora é esperar a conclusão do trabalho para testarmos o comportamento da vela no barco. Aproveitamos o ensejo para fazer uma revisão e reparos nas velas antigas que estão boas.

            É com esperança numa performance especial que nos despedimos. Gratos a experiência e presença sempre imprescindível de Cesar.

            Bons ventos desde a Babitonga!



► Conheça o trabalho do Roberto acessando a página do Estaleiro Artesanal (clique aqui);


► Conheça o barco do Rogério Martin acessando a página do Tiki Rio (clique aqui).

domingo, 8 de dezembro de 2013

Problemas versus Soluções - Parte II - Bomba Elétrica

A partir da década de 80, no Brasil, devido ao Pró-Álcool, toda gasolina comercializada por aqui foi acrescida de uma porcentagem de álcool, pois este, subsidiado pelo governo, é também mais fácil de obter e é abundante. A gasolina aqui, nunca mais seria a mesma.

            Nosso motorzinho, um Volvo Penta MB2a/50s, fabricado uma década antes, feito para o mercado externo, não foi concebido para receber a gasolina brasileira, acrescida de álcool. O álcool, quando utilizado nesses motores, causa corrosão nas bombas de combustível, dutos de admissão e escape e carburadores. Quem já teve um carro a álcool sabe que tem que trocar o escapamento com mais frequência.

            Foi justamente essa a razão do desgaste da bomba de combustível, originalmente mecânica. Seus micro pistões estavam completamente desgastados. Desmontada a bomba constatamos ser impossível sua recuperação. Fiz então uma varredura em vários distribuidores de peças, inclusive na própria Volvo. As respostas negativas nos obrigaram a adotar outro caminho.

            Cesar, sempre engenhoso, propôs uma bomba elétrica com uma pequena pressão de saída, em torno de 0,3 a 0,5 bar, apropriada à pequena necessidade do motor. Acatei a sugestão e fiz a encomenda.


            Negociação e entrega ótimas, iniciamos a instalação, feita com precisão, com a inestimável ajuda do Cesar.

            Instalamos também uma chave liga/desliga para a bomba, que dá controle sobre seu funcionamento, evitando um hipotético alagamento de gasolina no poceto, medida essa, meramente preventiva.


1. Bomba elétrica instalada,  2. Chave liga/desliga

            A necessidade de combustível fóssil é incrivelmente baixa, notamos que na lenta o motorzinho pode ficar uns 15 minutos funcionando sem alimentação, só “com o cheiro”. Ainda não pude calcular a autonomia do tanque de 25 litros, mas é evidente que beber não é definitivamente a sua praia. Da última experiência da Velejada Noturna também constatei que basta usá-lo em um quarto da aceleração para chegar onde se quer, quando se precisa de um auxiliar.

            As modificações que resultaram em melhorias substanciais e até vitais, não param por aqui, acompanhe a próxima postagem com outras medidas que adotamos para a recuperação desse simpático motorzinho.


            Abraços desde a ilha encantada!


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Um mísero parafuso!

“Deus está nos detalhes” Ludwig Mies van der Rohe

Quando da última navegada, registrada aqui pela postagem Velejada Noturna, o motor, falhou quando estávamos no meio do trajeto de retorno. Desde então, tentei fazê-lo funcionar sem sucesso. Com a presença sempre exata e imprescindível, Cesar matou a charada.

Iniciamos os procedimentos no motor para dar a partida. Tudo aparentemente certo, notamos que a faísca, função da vela, não estava sendo acionada. Tentei girá-lo várias vezes e Cesar notou que não havia explosão dentro da câmara de combustão. Descobriu isso, com o carburador desmontado, apenas jogando desengripante diretamente nos dutos de admissão e dando a partida. Esse é um teste que fazemos pra saber se a explosão está ocorrendo. Esses tubos de spray têm um gás explosivo, responsável pela saída do líquido, logo, se aplicarmos dentro da câmara e acionarmos a partida, ele explodirá, como um combustível. A explosão, depois de girar o motor, não ocorria. Cesar então me pediu para parar. Precisávamos analisar. Fez uma inspeção visual geral e constatou a bobina, que fornece a energia elétrica necessária ao funcionamento das velas, fora de seu lugar. Tinha caído. Rapidamente, reinstalou-a. Explicou-me que a bobina deve, obrigatoriamente, estar fixada, ou ligada, ao bloco do motor. O motivo é simples, a bobina funciona somente com um fio (geralmente vermelho) positivo para ligá-la, o negativo é feito através de um terra, simplesmente encostando a parte metálica da bobina com o motor, isso se faz através de um parafuso que a mantém presa ao bloco do motor. Quando estávamos voltando, da última vez, a vibração do motor, naturalmente, afrouxou o parafuso que prende a bobina e ela caiu. Cesar ainda me explicou que ela pode até ficar fora de seu lugar, mas então é preciso ligar um fio dela até a parte metálica do motor, um terra que tem função do negativo. 



Números 4 e 8: A bobina e sua instalação

Note ainda, através do desenho, que a bobina é fixada ao bloco através de dois parafusos. In loco, só existe o parafuso de cima, só descobrimos a existência do parafuso de baixo observando o manual do motor. Isso explica também o afrouxamento e consequente queda; com dois parafusos fazendo a fixação (como no original) será difícil, quem sabe impossível, acontecer da bobina cair novamente desativando o sistema elétrico das velas.


            Próxima pequena tarefa é encontrar um parafuso adequado para fixar a parte de baixo da bobina, pois esse parafuso era inexistente.

            Com essa nova lição aprendida finalizo a postagem agradecendo Cesar pela aula (prática!) de elétrica. Até a próxima!



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Problemas versus Soluções

“Não me venham com problemática que eu tenho a solucionática.” Dadá Maravilha*

Conversando comigo, Cesar propôs que façamos uma série de postagens detalhando o que fizemos nesses dois meses que passaram. Ele me convenceu quando disse que as pessoas se interessariam pela parte técnica, pois essas informações são relevantes quando elas precisam resolver problemas semelhantes em seus próprios barcos. Ele sugeriu também o formato desses textos, como você verá abaixo.


Cesar pousa no poço (cockpit) do Hoje!

Começaremos com um problema no motor que nos deixou apreensivos logo na primeira saída*.

Problema:

A partida era dada com relativa facilidade, contados aproximadamente vinte minutos de funcionamento, notava-se uma leve fumaça e pifava. Depois disso não era mais possível religá-lo. Pousando a mão sobre a parte de cima do motor se concluía que estava mais aquecido que o normal, isso explicava também o fato da leve fumaça. Cesar constatou que ela era resultado desse calor demasiado, que sobreaquecia as borrachas. Depois de frio era possível dar nova partida, tão logo aquecesse, pifava novamente.

Diagnóstico:

Muito provavelmente o sistema de arrefecimento, que é feito com água salgada, estava ineficiente ou inoperante. Por conta disso o motor aquecia até travar. Os pistões dilatavam e os anéis eram suprimidos na camisa causando o travamento. Isso persistia até a temperatura decair.

Solução:

Cesar estudou os dutos de admissão da água salgada e descobriu por onde ela entrava. A princípio desconfiávamos do rotor que poderia estar quebrado, mas, com o motor ligado, tiramos a mangueira que puxa a água salgada da rabeta, que sempre fica submersa, e a manda para dentro do bloco, ou seja, ele estava executando perfeitamente seu trabalho. Deduzimos então que algum duto interno do motor estaria entupido. Cesar fez um teste com a mangueira que entrava no motor, assoprando-a, e o resultado foi negativo, logo, era lá dentro o problema.


Assinalado em vermelho, a entrada d’água salgada que estava obstruída

Para tirar uma dúvida, Cesar introduziu uma chave de fenda na boca do duto, no bloco do motor. Ali, havia, pela ação do tempo, depositado-se muito sal causando o entupimento. Desobstruiu o canal e podemos constatar uma pequena “pedra” de sal. Montamos novamente os dutos e religamos o motor. Surpresa! O motor ficou ligado durante duas horas e só parou de funcionar por que o desligamos. Enquanto ele funcionava todo esse tempo regulamos o carburador. Até seu ronco passou a soar bonito e agradável. Como é bom poder fazer as coisas funcionarem em sua máxima precisão, pura harmonia! Durante essa lacuna cronológica houve um trabalho paciente e minucioso, análogo ao de um relojoeiro e toda essa meticulosidade culminou na recuperação de um motorzinho simpático que dá gosto ver funcionando.

Acompanhe a série de soluções que encontramos para os problemas apresentados no Hoje! afim de melhorá-lo para ótimas velejadas.

Abraços e até a próxima postagem!


Obs.: As palavras que contém o * remetem a um link sobre o assunto relacionado.