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terça-feira, 17 de março de 2015

A primeira regata a gente nunca esquece!

         Semana passada, mandei mensagem ao Wagner perguntando se ainda estava de pé o convite feito anteriormente por ele e sua Almiranta, a Neusa, para conhecermos o Leva Vento, um MOD 40 recém-adquirido e cuidado a “pão de ló” pelo antigo proprietário. Respondeu positiva e entusiasticamente como quem quer mostrar o filho recém-adotado. Embarcamos, eu e Luciane, para conhecermos o Leva Vento. Luciane e Neusa não se conheciam e esta foi uma ótima oportunidade.


         Wagner Meiga é o nome do Comandante do Leva Vento. Temos um laço de amizade com ele desde o lançamento do Hoje!, quando o Luciano Saraiva, hoje professor de Vela do JIC (Joinville Iate Clube), convocou-o para ajudá-lo no delivery do Capri até o Museu Nacional do Mar. Essa história eu já contei aqui no blog e para conhecê-la ou revê-la clique aqui. Wagner é natural de São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. É piloto e confidenciou-me que teve a oportunidade de trabalhar em regiões rurais para exercer uma de suas paixões, a aviação, porém, a paixão pelo Mar falou mais alto e não conseguiu ficar distante por muito tempo. Exímio praticante de Kite e Wind Surf, depois que veio morar em São Francisco do Sul, não mais voltou e sua paixão pelo Mar só se intensificou. Introvertido por natureza, quando se solta, expele pérolas humorísticas bem ao seu tom.

         Na outra semana, Wagner nos envia mensagem convidando para a regata organizada pelo JIC e a Flotilha Norte Catarinense de Veleiros de Oceano, a FNCVO. Empolgados, aguardávamos ansiosamente a participação em nossa primeira regata.

Para fazer parte da tripulação ele convidou a Marina Brushi, personagem que já figurou nesse blog, quando precisamos de ajuda num dia de sufoco em que o Hoje! “fugiu” da poita. Caso não conheça essa história ou queira relembrá-la clique aqui. A Marina hoje é Coordenadora do Museu Nacional do Mar. Devolve toda sua devoção ao Mar e barcos se dedicando ao árduo trabalho de fazer o Museu sobreviver com recursos esparsos. Tarefa árdua, pois todos sabemos, em nosso país, a educação é algo relegado ao supérfluo e cultura, principal e infelizmente, a náutica; dessa maneira, é tida como um artigo de luxo. Sempre é convidada para tripular diversos barcos, pois endossa sua experiência e muito boa vontade, resultado de várias travessias pela costa brasileira e também por várias regatas que correu em diversos lugares.

Sábado, 14.03.2015. Às dez horas chegávamos ao Museu Nacional do Mar, local onde fica apoitado o Leva Vento. De acordo com a previsão os ventos viriam do quadrante leste, a princípio, de intensidade irrisória, fato que se confirmou. Saímos a motor por dois motivos: falta de vento e para chegar a tempo da largada, que seria em frente à entrada do Capri às 12 horas.


Partida do Museu Nacional do Mar


Içando a Mestra através de sua respectiva adriça e catraca


Bate papo com a tripulação do Azzurro antes da largada


Luciane feliz da vida em sua primeira regata


Luciane e Marina na expectativa da largada


Veleiros Azzurro (Skipper 21) e Kraken (Skipper 30) se preparando para a largada

Para não queimarmos a largada, tivemos que dar um jaibe, o que nos deixou de popa para a saída. A nosso bombordo tínhamos o veleiro Catarina que pela regra de regata nos pediu “água”, ou seja, tinha direito de passagem, o que nos fez ficar entre eles e o barco da CR (Comissão de Regata) a boreste, fomos então obrigados a utilizar o motor para não abalroá-los; procedimento aceito dentro do regulamento, visto que tem como objetivo assegurar a integridade das embarcações e tripulações (Vide súmula com o resultado final no rodapé desta postagem).

Depois do apito de partida, de acordo com a regra, ainda temos 20 minutos para cruzar a linha e iniciar o trajeto de regata. O vento mirrado não nos ajudava; o Leva Vento é um portentoso e elegante barco de 40 pés e devido ao seu peso, proporcional ao seu tamanho, não se desloca com qualquer brisa. Temíamos não largar e então a frustação não poderia ser escondida. Com paciência, atributo digno de todo velejador que se preze, aguardamos o momento certo. Efetuamos o jaibe e então iniciamos nosso deslocamento, cruzando a linha de partida e rumando em direção à barra da baía Babitonga. Como o vento vinha praticamente “na cara”, e barco à vela não velejam de cara para o vento, fizemos os costumeiros, trabalhosos, mas também, prazerosos, bordos. Ziguezagueando e costurando o canal da baía, ora colocando a proa na praia de Itapoá, chegando bem perto dos pesqueiros, ora aproando até a praia do Capri, local pouco povoado, devido à área preservada.

Sentimos, através das cambadas, que o Leva Vento, por sua característica de barco de cruzeiro, orça e aderna suavemente, oferecendo muito conforto aos seus tripulantes; um legítimo “cruza-mares”, mas, sem perder em desempenho, o que é uma surpresa agradabilíssima.

Nossa abordagem à barra foi morosa devida à largada atrapalhada, dessa maneira desgarramos dos outros veleiros e, segundo o Comandante Wagner, não fosse isso, estaríamos muito próximos, ou até na retaguarda deles.

Como ninguém de nós é profissional, a coisa toda só pôde ser encarada, senão, como uma brincadeira de gente grande, e o resultado, do começo ao fim, foi muita diversão. Os ventos nos foram mais favoráveis, aumentando um pouco de intensidade, variando entre 10 e 12 nós. Éolo, quem sabe, sendo menos rigoroso nos concedeu o prazer de uma aprendizagem tranquila e sem solavancos.

Tão logo nos aproximamos do Arquipélago das Graças, fizemos a abordagem da Ilha dos Veados até muito próximos dela, quando cambamos a bombordo, contornando-a. Iniciamos a volta das ilhas, fato inédito para eu e Luciane, e podemos observar o visual inóspito da Ilha da Paz, onde se localiza o Farol, pela visão de quem vem pelo mar; grande experiência! Como bem explicitado pelo Comandante, a vegetação daquele lado da ilha é baixa devida à incidência do vento sul, que sopra com intensidade e rigor.

Contornamos o arquipélago usando todas as posições possíveis nas velas (mareações), até, finalmente, adentrar a baía novamente, com o vento em popa; em asa de pombo.

Perto da chegada, meio que por castigo, com a correnteza contra, ultrapassamos o veleiro Catarina, do mesmo comandante que havia nos pedido “água”, não aliviando nossa largada, o que nos atrapalhou um pouco. Com muito bom humor, afinal, tudo é uma confraria de colegas, brincamos que não chegaríamos por último. O barco da comissão de regata aguardava na linha de chegada e apitou sinalizando o término de nossa participação. Permanecemos nesse rumo, em asa de pombo, até a chegada ao Museu e radiantes nos aproximamos da poita do Leva Vento. Chegando ao Museu, alguns colegas de outros veleiros, vindos do JIC, mas não participantes da regata, ali se encontravam e nos cumprimentamos e conversamos sobre o dia bonito, ou qualquer coisa que enfatize a vida à vela que nos causa grande prazer, como é de costume entre velejadores. Para comemorar, Marina trouxe cervejas Itaipava, e, inevitavelmente, lembrei que os colegas velejadores e blogueiros paulistas apreciam muito a bebida. Estupidamente geladas, devido a geladeira eficientíssima do Comandante, degustamos e celebramos a regata, à nossa amizade e à vida!

Agradecemos a oportunidade, companhia e experiência concedidas pelo Wagner e Marina e aguardamos com agradável ansiedade a próxima regata.

É com esses ventos favoráveis que nos despedimos embarcando cada vez mais na vida náutica, coisa que é de um valor imensurável, e se tiver dúvida, tente também, tenho certeza; isso poderá mudar sua vida irreversivelmente.


Grande abraço da nossa família à sua, bons ventos e mares desde a Babitonga!


Comandante do veleiro Catarina (Ranger 22) pedindo“água”


Emparelhados, prontos para o apito de partida


Marina feliz depois de ajustar a Genoa num bordo


Num bordo, rumando até a praia de Itapoá, lado esquerdo do baía Babitonga para quem está saindo


Comandante Wagner tocando seu barco e curtindo a velejada


Popa do Leva Vento e sua esteira


Muita água depois do trabalho nas catracas


Ao largo nossos oponentes aproximavam-se do arquipélago das Graças


Abordagem à Ilha dos Veados


Visão de quem vem pelo mar da Ilha da Paz e seu Farol


Farol da Ilha da Paz visto do mar


Nenhum veleiro ancorado na Ilha da Paz, é dia de Regata!


Comandante Wagner brincando com a tripulação do Catarina


Veleiro Catarina e seu bonito balão pela nossa esteira


Catarina visto por nossa popa


O belo MOD 40, motivo de orgulho do Comandante Wagner


Posando na volta ao Museu do Mar, radiantes depois da experiência da regata através do Leva Vento


Registro do anoitecer embarcado no Leva Vento




Resultado oficial da regata

domingo, 27 de julho de 2014

E o Hoje! segue seu rumo...


         Para quem ainda não sabe, o Hoje! agora está sob os cuidados do Júlio, amigo que fizemos tão logo iniciamos o processo de venda. Enquanto estive em São Luiz para ajudar a trazer o catamarã do Fernando, outro amigo que fizemos por causa do mar e barcos, o Júlio tinha vindo até a Babitonga para o primeiro contato com o Hoje! Às pressas passou o barco para seu nome e tão pouco teve tempo de embarcar para conhecê-lo. Veio uma segunda vez, pois reside em São Paulo e trouxe um amigo que nunca havia embarcado, e por respeito a ele, não saiu com o barco, pois aquele não sentiu-se bem. Essa semana, pela terceira vez por aqui, pôde fazer finalmente seu debut no Hoje! Pediu-me auxílio para que aprendesse sobre os baixios na saída de Capri. Nada de anormal, apenas precaução e uma desculpa para não ir sozinho, coisa que velejador só faz em último caso, como vários colegas relatam.

         Como o barco estava parado o único receio que tivemos era a respeito do motor que podia não corresponder, ou seja, o carburador pode sujar por falta de uso e o funcionamento não ser adequado comprometendo a segurança caso ele seja necessário. Essa hipótese confirmou-se no início e ele apresentou um comportamento dúbio. Funcionou durante um tempo e depois apagou. Fizemos uma sangria no carburador, procedimento ensinado por Dom Cesar. Constatamos a posteriori que era mesmo falta de uso pois a sangria resolveu. Isso foi indicativo que teríamos uma bela navegada de estreia.

         Muita conversa no cockpit e o Júlio mostrando-me orgulhoso todos os pequenos detalhes que acrescentou ao Hoje! incrementando o barquinho. Com tanta gente zelosa em volta dele, está ficando vaidoso.

         Saímos pelo canal paralelo ao que o Hoje! encontrava-se, agora ele fica no mesmo canal do Capri Iate Clube, canal esse ainda mais abrigado que o Iriri. A felicidade e satisfação esteve presente o tempo todo a bordo e era nítida na fisionomia radiante do Júlio. Apenas orientei no caminho a tomar, intervindo muitíssimo pouco. Quando dobramos a Ponta das Galinhas e tomamos o canal principal da baía Babitonga ele domou o bichinho sozinho, pois tem experiência de anos pela Represa da Guarapiranga. Tomou consciência me confidenciando que aqui terá um novo elemento presente na navegada: a maré, uma novidade pra ele. Na prática, é mais um tempero no caldo para tornar mais saborosa a experiência.

         Uma vez no canal principal Júlio conduziu num través, como é de seu gosto, e pôde sentir pela primeira vez como é conduzir seu próprio barco no mar pela primeira vez. Com toda certeza uma experiência memorável e sem sombra de dúvida exaltada pelo clima perfeito; era a cereja do bolo que faltava. As fotos não me fazem mentir e dizem muito mais que o mais bem redigido dos textos, acompanhe.

         Na volta podemos presenciar o retorno do grande colega Fabrício com seu belíssimo clássico de madeira. Em terra ele gentilmente apresentou-se para conhecer Júlio, curioso dessa nova história feliz que iniciou-se por aqui. Aos poucos vamos nos aproximando e fazendo mais íntima essa confraria de pessoas que compartilham desse amor pelas coisas do mar e tem na amizade um laço forte de solidariedade.


         Grande abraço da nossa família à sua e que os elementos o levem ao porto almejado.






Entrada do Canal Iriri e em primeiro plano a Ponta das Galinhas



Vizinho ao Hoje! dorme silencioso um trimarã batizado de "Atobá" à espera de um novo dono



terça-feira, 24 de junho de 2014

Madrugada, través de Tutoia...


         Domingo, vivíamos as primeiras horas do dia primeiro do mês de Junho. Través de Tutoia. Depois da partida de São Luís, cada qual, assumia seu turno, os outros descansavam.

         Turno do cão é o termo náutico que denomina o espaço de tempo que um marinheiro tem que ficar de vigília na embarcação, responsável pelo barco e tripulação, geralmente entre as 2 e 4 horas da manhã. Nesse horário, muito provavelmente devido a nossa característica biológica, o cérebro utiliza para o sono profundo e reparador pois, temos hábitos diurnos. Por mais que estejamos descansados é a hora mais difícil, praticamente impossível não cochilar.

         “Toque-toque-toque”. Aos poucos fui despertando do sono leve que consegui ter. Fernando batia na gaiúta da cabine que eu pernoitava. Mesmo semidesperto, a comunicação era clara: chegara minha vez, era o meu turno. Para reforçar e certificar-se que havia despertado, chamou por mim completando com uma fisionomia nitidamente cansada: “Vá lá, é a sua vez.”

         Pedi-lhe alguns segundos para preparar-me. Vesti uma jaqueta. Por mais que estejamos numa latitude perto da linha do Equador, a noite, com o vento e ausência do sol, expostos aos elementos, sentimos frio.

         Tão logo assumi o leme verifiquei a tela do GPS. A rota traçada era muito próxima de terra, quase em colisão com pedras da entrada da barra de Tutoia. Aquilo deixou-me cabreiro. Indagava-me do porquê daquilo. Mantive o barco no rumo, como orientado, mas não conformava-me. Por que rumaríamos em direção à barra tendo a nosso bombordo (esquerda) um mar infinito e sem obstáculos e perigos à navegação?

         Aquela dúvida corroía-me interiormente. Alguma coisa estava errada. Não podia acatar uma orientação dessas sem questionar, era a vida de todos e a integridade do barco que estava em jogo. O que eu alegaria caso ocorresse um abalroamento? Aquilo deixava-me muito inquieto.

         Sabia que o Capitão Glauco jazia no sofá da cabine principal dormindo o sono dos justos, descansando de um turno longo por conta da responsabilidade inerente a ele a respeito da passagem pela barra da baía de São Marcos e os bancos de sua entrada. Sentia ter que despertá-lo, porém, o momento era oportuno, a situação, pra mim, estava começando a ficar tensa. Não podia mais calar. Com muito pesar, despertei Glauco. Na primeira tentativa, fiz de maneira tímida e não obtive êxito. Sabendo não haver outro jeito, chamei-o de forma mais eloquente, no que, prontamente e um pouco assustado respondeu levantando-se. Expliquei-lhe a situação e demonstrei minha hesitação. Explicou-me que devido aos currais de peixes, que ficavam a bombordo, devíamos, obrigatoriamente rumar por onde indicou através do GPS. Os currais são instalados na baixa-mar através de estacas verticais com redes, são uma armadilha primitiva e secular usadas pelos pescadores do nordeste brasileiro. O problema é que na maré alta os currais ficam semi submersos, invisíveis a olho nu e podem representar um grande perigo à navegação: o barco expõe suas obras vivas ficando vulnerável a esses obstáculos e isso pode causar um grande transtorno aos navegantes, desde um simples enrosco na hélice do motor até algo mais grave com o casco, ocasionando, em última instância um naufrágio.

         Sentindo que o momento requeria especial atenção, Glauco, prontamente chamou Luiz Henrique, o Saci, para reforçar a vigília. Do leme, o Capitão instruía-nos. Indicou que eu ficasse a bombordo de guarida em possíveis indícios de algum curral. Saci colocou-se defronte à luz de boreste (verde) do outro lado da embarcação, para não ofuscar nossas visões.

         O céu estava completamente limpo e nunca pude ver tantas estrelas em toda vida. Com o reforço dos dois experientes marinheiros, vi minha tensão baixar e o que no início era solitária preocupação, virara uma descontraída “caça aos currais”. Cheguei a usar uma lanterna em busca de nossos possíveis obstáculos, mas fui admoestado por Glauco sobre a inutilidade dela; comprovei na prática a orientação do Capitão. Ficamos na companhia um do outro até a passagem do ponto fatídico, cada qual em seu posto, em vigília permanente até afastar hipoteticamente o perigo. Ao final tudo correu bem e Glauco e Saci colocaram-se novamente a descansar.

Permaneci no turno, pois dali pra frente, com os fantasmas afastados, faria minha parte. Ainda com adrenalina correndo nas veias, foi muito mais fácil manter-se desperto. O que vi depois foi puro espetáculo. A partir daquela hora o sol, mansamente, haveria de nascer. No mar, tudo tem outro encanto, outra dimensão. Muito cedo, devido a ausência de montanhas ou outro obstáculo visual vertical, podemos presenciar o nascer do sol. Nenhum tipo de luz artificial ofusca sua presença precoce. O nascer e pôr do sol no mar, embarcado, é realmente algo especial e pontos fortes da navegação, não há quem passe ileso. E sucederam-se vários dias assim, cada qual um deleite, nunca repetindo-se, sempre um espetáculo à parte.

Acompanhe outros relatos sobre essa travessia cheia de belas experiências a bordo do catamarã Guina.

Abraços e bons ventos!

sábado, 21 de junho de 2014

A partida de São Luís


         Sábado, 31 de maio. Dia da partida. A tarde estávamos tranquilos pois, praticamente tudo estava acertado, alguns detalhes como cunhos extras de amarração foram instalados pelo Júnior como precaução, e foi só. Enquanto Fernando preocupava-se com isso, Norberto e eu sentíamos o clima receptivo dos associados da AVEN e sentamos numa mesa para ouvir um papo pra lá de animado e muitas histórias náuticas interessantíssimas, como uma de um casal que com seu pequeno catamarã de 28 pés desceu desde São Luís até a Bahia fundeando e conhecendo cada abrigo da costa nordestina. Também ouvimos muitas histórias, algumas hilariantes, de Sérgio e esposa, casal carismático responsável pelo estaleiro Bate Vento, fábrica dos catamarãs que habitam os sonhos de muitos velejadores. Como partiríamos num sábado muitos associados encontravam-se por lá, o clima portanto era muito amistoso e empolgante, sentíamos a curiosidade da maioria com nossa partida. Conversei ainda com um senhor chamado Jeferson, proprietário de um trimarã feito artesanalmente por ele mesmo batizado de Fuga e fez questão de desvendar-me vários aspectos de seu barco, inclusive o velame com a mestra içada através de uma espicha. Confidenciou-me também que fez uma longa temporada no Caribe como capitão de um veleiro demonstrando-me sua experiência e gosto por navegação.

         Com tudo pronto esperávamos pelo Capitão Glauco Vaz que acertava detalhes relativos à sua partida e ausência por pelo menos um mês, tempo estimado do delivery até o destino do Guina. Chegou com sua esposa e apresentou-lhe tripulantes e barco.

O Capitão apresentara-se, então, psicologicamente, todos sabiam que o momento de zarpar aproximara-se e pomo-nos todos na faina de desatracação. A euforia estava no ar e todos almejavam adentrar no “marzão de Meu Deus”, nas palavras de Luiz Henrique, o Saci. A expectativa e emoção tomaram conta da tripulação ao soltar as amarras da AVEN. Dali em diante sabíamos, estávamos todos expostos ao mar, não mais na segurança de um porto.

Nos afastamos da AVEN e partimos em direção à barra da baía de São Marcos. As luzes das avenidas e prédios de toda orla dos novos bairros de São Luís ainda davam aquela impressão de acolhimento que estávamos sentindo. Aos poucos nos distanciamos da capital e aqui e acolá passávamos por navios, vários, muitos, todos fundeados esperando a hora de atracar no movimentado porto de Itaqui. Quando deixamos o último navio pelo través de boreste sentimos internamente que a viagem realmente começara. As luzes da cidade, que nos causam uma sensação de calor e relativa segurança, ficavam para traz gradativamente.

Desabituados com a rotina a bordo, banzeiro e ruído do motor, a ansiedade deu lugar ao cansaço e nos pomos no cockpit a trocar algumas palavras e descansar, alguns trouxeram até travesseiros. A apreensão deu lugar ao sono coletivo, com exceção de Glauco que ficara no leme, de vigília, por causa dos grandes bancos de areia que formam-se na entrada da barra.

Ultrapassados os bancos, um a um, fazia seu turno. Essa seria nossa rotina daqui pra frente até o próximo porto: Fortaleza. Embora pareça, não havia monotonia e divertíamos contando causos e fazendo comida quando o mar permitia, quando não, atacávamos no estoque de trubiscos que tínhamos escolhido no mercado. O comandante de um turno exonerava-se quando chegava a hora, então colocava-se à disposição do novo oferecendo algo para comer ou beber e ajudar a mantê-lo em vigília, principalmente à noite, por pura cortesia e coleguismo, não estipulamos nada, ocorreu naturalmente.

Assim sucedeu-se a primeira noite a bordo em direção ao sul, durante quase toda a madrugada perpassamos os Lençóis Maranhenses, lugar ímpar no mundo que Glauco, aumentando nossa curiosidade, fez enaltecer explicando que a água de lá tem cor azul clara e é doce. Nos sentimos quase na obrigação de voltar um dia para conhecer essa preciosidade.

Acompanhe o desenrolar dessa travessia nas próximas postagens.


Abraços, bons ventos e até.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A preparação em São Luís - Parte II


         Sexta-feira, 30 de maio. O almoço delicioso e fraternal acabara, aquela sensação gostosa e acolhedora deveria ser substituída pelo dever; precisávamos trabalhar para a conclusão de todos os acertos indispensáveis a travessia, que deveria, obrigatoriamente, acontecer sem imprevistos ou surpresas desagradáveis.

         Durante a tarde nosso último tripulante chegou vindo se São Paulo. Norberto é um gaúcho que há pouco tempo mora na capital paulista. Experiente regatista, inclusive de multicascos, fortaleceria o time endossando sua experiência ao grupo. Chegou demonstrando seu bom humor e carisma elevando ainda mais o astral da turma, e assim foi até seu desembarque. Faz, com relativa frequência, testes de barcos para a Revista Náutica.

         O dia passou rápido e com o calar da noite preocupamo-nos de provisionar o Guina de víveres, então, em dois carros fomos até o mercado. A compra foi divertida pois, todo mantimento que escolhíamos era objeto de indagação do grupo: seria adequado ao consumo embarcado? Com três carrinhos abastecemo-nos com tudo que acreditávamos ser necessário, nessa etapa, mais uma vez a experiência do Capitão Glauco fez diferença nos fazendo optar pelo que realmente seria consumido e necessário, exceto alguns exageros daqueles que nunca passaram por tal experiência. Chegamos tarde e quando nos encaminhamos ao caixa já haviam fechado o mercado, restando apenas o nosso atendimento. Para coroar o dia produtivo, resolvemos, mesmo cansados, comemorar comendo uma pizza. O final do dia terminou em uma cantina embalado a muito suco de laranja natural em jarra e pizza de boa qualidade. Estávamos felizes e realizados pois tudo correra bem e a previsão de saída, continuasse assim, seria cumprida. Nos instalamos adequadamente no barco e a primeira noite de sono a bordo do Guina foi muito confortável.

Sábado, 31 de maio. Nem bem o dia amanheceu e todos colocaram-se de pé. A ansiedade, otimismo e satisfação eram muito grandes, afinal, logo cedo combináramos de velejar inauguralmente o Guina. Cabe aqui uma explicação, até então o barco não velejara pois, há pouco não tinha mastro, as velas idem, haviam recém chegado.

         Um dia agradabilíssimo por conta da temperatura e a ausência de nuvens no céu prenunciava uma grande velejada, o que foi uma consequência estupenda. A intensidade do vento parecia sob medida variando entre 15 e 18 nós. Saímos em direção à Ilha do Medo, adentrando a baía de São Marcos. Os motores nos auxiliaram até onde foi necessário, então içamos as velas e pudemos sentir, pela primeira vez, como esse belo catamarã de 47 pés se comporta. Nunca havia velejado um catamarã, e posso lhe assegurar que a experiência foi digna de nota. Uma suavidade e estabilidade que culminam em muito conforto. Pude levar a nave por um trecho e sentir o barco. Quando estávamos no través da Ilha do Medo, Norberto orientou-me a fazer o jaibe para retornarmos, o teste estava feito, o barco respondeu adequadamente. Atrapalhei-me um pouco com a manobra e fui acudido por ele pois, o catamarã se comporta de maneira diversa de um mono casco. Os jaibes, em catamarãs são mais lentos, afinal, eles tem um maior arrasto lateral. Com um grande senso de aprovação retornávamos radiantes, estávamos todos aéreos, mais um indício de que tudo corria de forma perfeita.

         O dia correu de forma tranquila e alguns poucos ajustes foram realizados, estávamos de volta à AVEN. A maré havia baixado novamente. Sentíamos no ar o senso de missão cumprida, restava esperar a maré encher e, no seu estofo, a nossa partida. A expectativa era grande, muitos de nós nunca haviam feito uma travessia costeira como essa, tudo era uma grande incógnita. Aguardamos o fim do dia e a hora estipulada com agradável ansiedade e excitação. Nossos dias em São Luís haviam terminado infelizmente, o mar nos aguardava e nós a ele, com certa apreensão.

         Acompanhe o desenrolar dessa história nas próximas postagens.


         Abraços e bons ventos!


A luz especial de São Luís ao amanhecer...



Fernando (Previs), Luiz Henrique (Saci) e Norberto (Trovão)


Fernando contemplando sobre a primeira velejada


Norberto demonstra a Fernando a melhor posição de pilotagem


Saci ajusta e sente como a vela está comportando-se


Ilha do Medo


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Surpresas que a vida guarda


         Minha chegada à São Luís foi tranquila, porém, demorada e cansativa por conta de duas conexões de voo, uma em São Paulo, outra em Belo Horizonte. Embarquei em Joinville as 15 horas da quarta e cheguei as 2 horas da manhã da quinta-feira na capital maranhense, dia 29 de maio.

         No que restou da noite, dormi no hotel e aguardaria Fernando depois do café da manhã para conhecer-lhe e o seu barco. Conhecíamos um ao outro por mensagens em rede social, fóruns náuticos e por nossos blogs, ainda não havíamos nos encontrado presencialmente. Nossa família sempre acompanhou a história da família Previdi e achávamos muito interessante.

         Uma semana atrás eu mandei uma mensagem ao Fernando explicitando que cogitava a venda de nosso barquinho. Ele respondeu educadamente e ficou de avisar caso alguém estivesse interessado. No outro dia me respondeu à mesma mensagem perguntando “na lata” se eu não toparia trazer o Guina de São Luís até o litoral de São Paulo. Na hora achei educado e lhe respondi que pensaria pois achava a ideia um pouco distante da realidade. Havíamos combinado com o Ricardo Yoshima e família de fazer a perna Itajaí/São Francisco do Sul abordo do Amar sem Fim quando da passagem deles pela Babitonga, mas a saída deles da Argentina atrasou por questões burocráticas e ficamos esperando, então surgiu a proposta do Fernando.

         Em nossas conversas em família a Luciane sugeriu que vendêssemos o Hoje! e esperássemos, quanto tempo fosse necessário, até encontrar um barco que atendesse nossos anseios, pois cogitamos, a exemplo dessas famílias, uma embarcação para ser nossa morada flutuante. Eu, com certo apego ao barquinho, justificava, adiando esse momento tanto quanto necessário. Quando decidimos que era realmente essa vida a que almejávamos, então considerei a ideia da venda. Tinha em mente que em 6 meses venderia nosso barco. Antes de anuncia-lo publicamente mandei mensagens à pessoas que considerava, podiam conhecer alguém interessado, mas, confesso, não esperava mais do que mensagens educadas de retorno. Qual não foi minha surpresa, apenas dois dias depois de mandar a mensagem ao Juca ele retornou com uma resposta de um amigo, aluno de um de seus cursos. O barco está vendido e a compra foi feita basicamente pela internet, pois também não conheço o Júlio pessoalmente e ele quis logo ficar com nosso barquinho mesmo sem vê-lo previamente. Nós vamos passar o Hoje! de mãos com alegria e felicidade, pois ele cumpriu sua missão e foi além, ajudou na certeza de embarcar nesse mundo, que, escrevendo agora abordo do Guina no través de Acaraú/CE, não tem segredo nenhum.

         Como uma trama as histórias vão interligando-se e nossa vida vai tomando o rumo que adotamos. Fazemos contatos com pessoas que também buscam pelos mesmos anseios e misteriosamente as peças do quebra-cabeça vão encaixando-se com exatidão e perfeição incríveis, algo sequer sonhado ou imaginado.

         Grande abraço de toda a tripulação do Guina, bons ventos desde o litoral do Ceará!