quinta-feira, 15 de março de 2018

SALVAGUARDA DA VIDA HUMANA


a) A busca e salvamento de vida humana em perigo a bordo de embarcações no mar, nos portos e nas vias navegáveis interiores, obedecem à legislação específica estabelecida pelo Comando de Operações Navais;

b) Qualquer pessoa, especialmente, o Comandante da embarcação, é obrigada, desde que o possa fazer sem perigo para sua embarcação, tripulantes e passageiros, a socorrer quem estiver em perigo de vida no mar, nos portos ou nas vias navegáveis interiores;

c) Qualquer pessoa que tomar conhecimento da existência de vida humana em perigo no mar, nos portos ou vias navegáveis interiores, deverá comunicar imediatamente o fato à CP/DL/AG ou Autoridade Naval, mais próxima; e

d) Nada será devido pela pessoa socorrida, independentemente de sua nacionalidade, posição social e das circunstâncias em que for encontrada.



segunda-feira, 5 de março de 2018

A Passagem Proibida


Navegando pelo mar cibernético encontrei algo que poderá ser uma história no mínimo inusitada, digna de uma aventura autêntica. Segundo o próprio navegador pretendente ao feito, Jackson Rodrigues, o Capitão Joshua Slocum, primeiro velejador solitário a completar uma circunavegação pelo planeta água, almejava entrar pelo rio Orinoco na Venezuela, percorrê-lo até o rio Cachequerique, acessar o rio Negro, um afluente do maior rio do mundo: o Amazonas! Navegar até sua foz e finalmente reencontrar as águas do mar.

Joshua Slocum desejava realizar esse feito, mas uma provável tormenta o pegou de surpresa no mar do Caribe e nunca mais foi encontrado nem seu famoso barco batizado de Spray. Nosso nobre personagem tupiniquim pretende prestar uma homenagem póstuma àquele que ainda inspira muitos navegantes a embarcar em busca de aventuras e experiências semelhantes.

O trimarã construído por ele mesmo, Jackson Rodrigues, é rústico, mas inspira confiança e suas linhas denunciam sua qualidade marinheira. Para navegar dentro daqueles rios quando a mata for muito fechada e os ventos não forem suficientes, utilizará remos também construídos por ele. O pequeno barco não possui motor e a vela é içada à espicha como nos tradicionais barcos de nossa costa.

Sua estratégia parece muito adequada sendo que a palavra de ordem naquela região é discrição, pois não quer chamar a atenção senão concluir sua expedição. Todos sabem a região é inóspita devido à pirataria e o estado é quase ausente. Casos anteriores fazem a aventura parecer temerária, porém é de sonhos que vivemos e como crianças, quem nunca através de um mapa uniu dois pontos e traçou uma rota e teve imensa curiosidade em colocar todo esse plano em prática?

Essa parte do planeta habita os sonhos e curiosidade de humanos de todas as partes do mundo, muitos estrangeiros ousaram desvendar os segredos desses rios e alguns não voltaram para contar a história. Temos um Indiana Jones dentro de nós e muitos não conseguem sossegar enquanto não vão até lá saciar essa vontade de desbravar novas águas, terras e conhecer de perto os povos que habitam aquele lugar há muito tempo.

O lugar é de íncrivel riqueza, sobretudo natural, água doce praticamente inesgotável, fauna e flora abundantes e intrigantes. Milhares de aldeias indígenas, algumas delas nunca descobertas pelo homem branco. Em meio a toda essa diversidade natural e por causa também da humidade excessiva, muitas doenças tropicais.



Primeiro mapa da região elaborado pelo cientista alemão Alexander von Humboldt em 1850 comprovando a existência do canal



Note na área amarela do mapa que todo esse território são imensas ilhas fluviais, já que tudo é envolto por água!


Vamos acompanhar o aventureiro pela desconhecida e inóspita Passagem Cassiquiare torcendo por seu regresso incólume e que nos traga as impressões dessa incrível experiência a que poucos mortais têm coragem de enfrentar.

Bons ventos, marés e correntes!




quinta-feira, 21 de maio de 2015

O último aceno do intrépido velejador


         Dia 19 de maio, há dois dias, recebi um comentário do Luciano Guerra, Comandante do veleiro Araiti, baseado na Ilha Grande. Era a triste notícia do falecimento do grande velejador argentino Victor Otaño que em seu pequeno barco subiu a costa brasileira desde Buenos Aires. Morou por quase uma década na Ilha Grande e, com saudades da família, resolvera retornar. Na descida da costa, em seu caminho de volta, eu e o Cesar tivemos o prazer de conhecê-lo, quando da sua passagem por aqui. Quem ainda não conhece esse relato ou quer relembrá-lo clique aqui.


Os últimos dias na Ilha Grande, antes de zarpar definitivamente para o sul

Quando Cesar mostrou-lhe o barco que está construindo, Victor percebeu o grande potencial construtivo e como Cesar conhecia sobre motores e barcos. Então lhe pediu auxílio com seu motor de popa, pois o mesmo apresentava funcionamento irregular e não oferecia segurança. Cesar rapidamente, como de praxe, descobriu o problema alegando ser apenas sujeira no carburador, o desmontando inteiro, limpando, reinstalando e testando. Victor ficara muito contente, pois pensava ser algo mais complicado e penoso de se resolver. Permaneceu poucos dias conosco e antes de ir embora Cesar orientara Victor quanto ao melhor lugar para seu próximo fundeio, a Armação de Itapocorói, município de Penha, algumas milhas ao sul de São Francisco do Sul. A Luciane e eu então resolvemos presenteá-lo com um sacolão de frutas, alimento mais adequado quando nos fazemos ao mar, pois dependendo da condição climática não é possível cozinhar nem tão pouco comer algo mais elaborado, o corpo humano simplesmente rejeita. Antes de oferecer as frutas ainda perguntei se ele tinha alguma restrição médica como diabetes, pois aí frutas não seriam bem vindas, e ele simplesmente me respondeu negativamente, afirmando não utilizar nenhum medicamento controlado. Isso comprova que sua saúde era boa. Consta que quando chegou à Argentina morreu dormindo, junto aos seus.

         Reproduzo integralmente o e-mail que o Comandante Luciano Guerra me enviou como resposta ao meu pedido de algum “causo” sobre a vida dessa gran persona:


Olá Rico,
Antes de contar algumas histórias sobre o Victor segue as últimas fotos
do Marangatu antes de partir para o Sul. Foram tiradas quando passava
velejando por ele com o velejador argentino Luciano Menéndez.
Como eu sempre fazia.

Eu costumo acordar cedo, embarcar no meu veleiro Araiti, fazer a faina
e depois velejar. Antes de velejar eu sempre passo ao largo da Praia
da Crena numa espécie de bênção e bom dia aos velejadores amigos de
fora que sempre estão ali atracados. Enfim.

Sempre passava, dava bom dia ao Victor e ao outro velejador que ainda mora
na Ilha Grande, meu amigo Gerônimo. As vezes eu parava para conversar.

As vezes (quase sempre) era apenas um bom dia, mas era um ritual. Eu
passava pelo barco do Gerônimo dava um bom dia e depois eu passava
pelo Victor e recebia dele o meu bom dia. Só depois eu ia velejar.

"Causo"
Em diversas vezes ficava conversando com ele sobre subir e descer a costa.
Foi então que em uma dessas conversas ele me falou que o único medo que
ele tinha no mar era de navios cargueiros. Me falou que em Itajaí dormiu ao
leme e acordou com o barulho do hélice de um cargueiro bem no seu través.

Ele me falava que qualquer barco que não faz água pode cruzar o mundo,
basta que o velejador seja um bom meteorologista e não ligue para calendário
gregoriano e relógio de pulso... risadas..... :-D

Sempre trocávamos ideia sobre os melhores dias para ir até Paraty (vento LE).
Mas eu gostava mesmo era da calma dele.

Na Ilha Grande não deu muito tempo de passar necessidade porque lá nós nos
ajudamos muito então ele logo arrumou trabalho que rendesse a ele recursos
para se alimentar.

Ele falou que a Baía da Ilha Grande era como o céu na terra, mas que gostaria
de voltar para a Argentina e viver seus últimos dias por lá dignamente.

Na Ilha Grande, o largo da Praia da Crena é como o nosso quarto, onde após
um dia de velejada jogamos o ferro e voltamos para dormir. Para o Victor era
a casa dele.

Era muito bom conversar com esses dois argentinos o Victor e o Gerônimo.

Um sempre sorrindo (O Gerônimo) e o outro sempre silencioso e sereno (Victor).

"Causo"
Certa vez estávamos preocupados porque ele falou que iria até Angra e voltaria
rápido..............

Um mês depois, velejando por Paraty encontrei o bravo lá:

Eu -- Hola Victor!!! Como estás?
Victor -- Mui bien...Estoy mui bien...
Eu -- Quanto tempo está em Paraty?
Victor -- Creo que cheguei ontem vindo da Ilha Grande.
Eu -- Victor! Você já está fora da Ilha tem um mês.
Victor -- "JURA????"

Eu e ele -- muitas risadas....




Abraços
Luciano Guerra
Veleiro Araiti
Ilha Grande



         Bons ventos, onde quer que esteja Victor.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

1.ª Feijoada Cultural do Museu Nacional do Mar


Passados quinze dias, pude sentar com calma e descrever o último grande evento cultural ocorrido no Museu Nacional do Mar, sim, mais um! Esses meses foram intensos. Recebemos primeiro a jornalista carioca Isabella Sousa Nicolas para o lançamento do seu livro e exibição do belo documentário Mar Me Quer. Depois a recepção foi feita à grandíssima navegadora (remadora e velejadora) Isabel Pimentel que pode dar o privilégio de sua convivência conosco inclusive num jantar muito especial feito pelos pais do Wagner Meiga na casa deles.

Muito apropriadamente, foi proposta uma atividade cultural e social para angariar fundos para os projetos de navegação do Museu que há muito estavam parados, só necessitando esse empurrãozinho para reinício das atividades. Os barcos já estão lá, os professores idem. Foi inaugurado um flutuante, para que, de forma segura e acessível, as crianças e professores possam exercer as atividades virtuosas do Remo e da Vela. Foi a 1.ª Feijoada Cultural que teve a participação de crianças da rede pública, algo de suma importância, líderes locais representando várias entidades ligadas ao mar e a cidade e a presença dos idealizadores desse grande reduto cultural que é o Museu Nacional do Mar; o professor Dalmo Vieira Filho e o navegador e escritor Amyr Klink.

Desnecessário dizer que foi uma grande festa, e que organização! Os participantes notaram; o trabalho e esmero foram grandes. O resultado de tudo isso foi uma ótima sinergia que tornou propícia a transmissão de conhecimentos e vivências que com certeza registrou-se na memória de quem ali esteve presente. Foi um dia especial, era possível sentir isso. Com a aproximação dos idealizadores e mantenedores do Museu pode-se entender a amplitude e profundidade da mensagem que esse, antes apenas um velho armazém abandonado da extinta companhia Hoepcke, passa àqueles que se aventuram a tentar desvendá-lo. E essa tarefa não é difícil, necessário apenas que deixemos nossa imaginação flutuar pelos mares, assim como nossos ancestrais fizeram por séculos ou milênios.

A competente e talentosa banda Guarani, a mais tradicional de São Francisco do Sul, abriu o simpático evento. Consta que tem quase um século de existência desde a sua formação inicial. É formada majoritariamente por instrumentos de sopro de metal e se caracteriza por ser uma Big Band. Tocou vários sucessos populares com arranjos especiais e impecavelmente executados. Som agradabilíssimo no ar que tornou a atmosfera mais sofisticada e apropriada.

Aí então o Cesar, responsável pelo charmoso Café do Museu foi quem fez as vezes de anfitrião e, ótimo orador, anunciou aos presentes quem iria discursar. Tivemos a presença e palavra de um munícipe muito importante para a história da cidade, Carlos Alberto de Oliveira, conhecido simplesmente como “Zera”. É o prático há mais tempo na atividade e completou recentemente meio século na profissão. Depois foi a vez do Capitão de Corveta Claudio Luiz, que demonstrou toda a sua admiração aos feitos do ilustre convidado que discursaria a seguir. O último a dar brevemente a palavra foi o grande navegador e escritor brasileiro Amyr Klink. Enfatizou que o Museu deve incorporar nova fase e, num misto entre devaneio e realidade, assinalou que aqueles barcos que ali jaziam como fósseis de um período muito antigo fossem ressuscitados recolocando-os n’água a fim de que as crianças pudessem entender o passado e compreendessem toda a poesia dos antigos que desfilavam nessas canoas dependentes apenas das luas, marés, correntes e ventos. Que com seu conhecimento ancestral, herdados dos mais velhos, conseguiam construir aqueles barcos, responsáveis que foram por transportar pessoas, comida e também esperança.

Esse novo insight foi revelado e no que depender de nós, arregaçaremos as mangas para poder propiciar isso às nossas crianças. É um resgate de nossas origens e elas precisam conhecer isso. Ainda falando delas, depois do breve ensejo, a feijoada foi servida paralelamente à conversa do Amyr embaixo de uma frondosa árvore na parte da frente (para o mar, é claro) do Museu, que tem o porto de São Francisco na outra margem. A árvore fora providencial com o sol de outono que não dava sensação de queimar, mas que em excesso incomodava. Ali, mais do que prestar contas com a escola, a fim de melhorar notas e poder exibir um boletim melhor aos pais, vimos crianças muito atentas, perguntaram muito mais do que era necessário à obtenção de notas. Foi lindo! O interesse era genuíno. Baseados em alguns poucos relatos de nosso grande marinheiro dos mares gelados eles puderam, face a face, saciar a sua curiosidade perguntando-o sobre fatos que bem poderiam ter sido criações fictícias. Com paciência e tato dignos dos gênios respondeu calma e interessadamente a cada uma das ávidas crianças.

A Feijoada, e agora me refiro ao prato, estava divinamente preparada. Fora feita com esmero e requintes de chefe de cozinha. Algo digno de nota visto que era um almoço acessível à população.

Nosso grande amigo Luciano Saraiva trouxe seus alunos de Vela do JIC (Joinville Iate Clube) e demonstrou o que são as aulas e como as crianças se comportam com os barquinhos; um misto de diversão, disciplina e trabalho em equipe. Ele colhe junto ao JIC os primeiros frutos dessa dedicação, nos resultados das primeiras regatas que estão realizando fora do clube.

Foi um dia memorável e agradabilíssimo em clima familiar e sentimento de união autêntico. Todos ali estavam muito satisfeitos em fazer parte do sentimento de integração. Aliás, esse é um sentimento inerente às coisas do Mar. O mar, afinal, foi responsável em unir os continentes e povos e não há como duvidar do incrível poder de coesão que ele pode provocar, é só olharmos atrás em nossa história. Querendo ou não, todo nosso caldeirão de povos e etnias teve que se reunir e formar uma nação. Essa lição de convivência resultou num povo afável e gregário como é o nosso, não por acaso.


É com esse sentimento elevado de evolução dos seres através da união dos povos e compreensão das diferenças que nos despedimos desejando os melhores ventos, da nossa família à sua desde a Babitonga!


Banda Guarani


O trombonista demonstrou seu domínio no instrumento solando com muita desenvoltura


Cesar, responsável pelo Café do Museu e um dos organizadores da Feijoada


Carlos Alberto de Oliveira, o “Zera”


Capitão de Corveta Claudio Luiz



Amyr Klink




Luciano Saraiva e seus alunos do JIC



Professor Dalmo Vieira Filho


Luciano Saraiva e a “guriada” do JIC, seus alunos de Vela


A “guriada” do JIC e o cozinheiro responsável pela deliciosa Feijoada


O Victor e a Lelê posando no convés do Leva Vento antes da confraternização ofertada pelos Comandantes Wagner e Neusa

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Os últimos dias foram muito especiais...


         Participamos, eu, o Rico, Letícia e Victor, de dois lançamentos de livros com palestras super interessantes no Museu Nacional do Mar. "Mar Me Quer" da Jornalista Isabella Nicolas e "Águas Vermelhas - A paixão que mudou uma vida" da Velejadora Izabel Pimentel que deu a volta ao mundo em solitário em seu veleiro Don.

       Aprendizado e inspiração, alegria e sonhos vivenciados em família que nos fizeram vislumbrar um mar de oportunidades e uma nova forma de viver e realizar nossos sonhos. A certeza de que tudo é possível para quem sabe o que quer e se decide a conquistar. E de que muitos encontraram resposta à pergunta de Neruda que Izabel cita em seu livro: "E sem sapatos como vamos dar a volta ao mundo, há tantas pedras nos caminhos?"...
Para fechar com chave de ouro, na noite de terça-feira, fomos convidados para um jantar na casa dos Meiga. Rita e Sr. Meiga, Wagner e Neusa prepararam uma sopa de pinhão especial e convidaram Marina Bruschi e Izabel Pimentel, que acabou por permanecer mais um dia na ilha e em nossa pousada. Uma noite agradabilíssima na companhia de amigos, muitas histórias e uma luz que iluminava a todos.
Agradecemos à Marina, Coordenadora do Museu Nacional do Mar, por nos dar a oportunidade de participação nos eventos. À Izabel por conversas tão enriquecedoras para nós e à família Meiga, pessoas muito especiais.
Abraços e bons ventos a todos, desde São Francisco do Sul!

Luciane Ville














sábado, 18 de abril de 2015

Exibição do filme e Lançamento do livro MAR ME QUER de Isabella Souza Nicolas


         Fomos convidados pela Marina Bruschi, velejadora e coordenadora do Museu Nacional do Mar, para exibição do filme e lançamento do livro MAR ME QUER da jornalista carioca Isabella Souza Nicolas. O evento ocorreu nessa sexta-feira à noite e reuniu um seleto grupo de entusiastas da vela e do mar.

         Marina, uma anfitriã exemplar, logo da nossa chegada fez questão de nos apresentar à Isabella. Pessoa simpaticíssima, Isabella atendeu a todos com seu carisma e extroversão, interessando-se por cada um que lhe abordava e, educada, perguntava de onde cada qual tinha vindo ou parte de sua história, interessando-se genuinamente e deixando assim, os convidados bem à vontade. E foi nesse clima descontraído e informal que o evento foi conduzido, inclusive Isabella, logo que entrou na sala do Museu que dá acesso ao auditório, ficou encantada com as baleeiras catarinenses e a sala feita especialmente para elas e sua história, que pediu à Marina para que o filme fosse exibido ali mesmo, em meio aos barcos; lugar muito oportuno, sem dúvida.

         Naturalmente comunicativa, nos contou várias histórias de bastidores muito interessantes. Confidenciou que a única equipe brasileira a participar de uma edição da Volvo Ocean Race com o barco Brasil 1, teve o orçamento de apenas um terço comparado às outras equipes, fato impressionante que evidencia a garra do Capitão e um dos maiores medalhistas olímpicos do mundo, Torben Grael, à frente do time de persistentes e experientes velejadores que conseguiram um feito elogiável e digno de orgulho aos brasileiros, um honroso e incrível 3º lugar geral no maior evento náutico do planeta.

         O livro e documentário traçam um fio histórico que liga os motivos de nosso “descobrimento” até o panorama da Vela atual passando pelos anos românticos e também vitoriosos de um esporte que teima em manter-se elitista, pelo menos na visão do populacho, fato esse que não agrada a classe e nos intriga quanto ao fato de termos um litoral imenso e tão pouco utilizado, ou no máximo, subutilizado, pois o brasileiro vai até a arrebentação para pegar uma onda e então retorna até a praia. A Vela, um esporte acessível desde a classe média baixa, mas que não desperta ainda interesse é realmente uma incógnita analisada no filme, porém sem resposta plausível.

         Sem sombra de dúvida uma noite memorável que acrescentou sobremaneira culturalmente ao público presente e que só reforça imensuravelmente o papel de propagador do saber e cultura marítima, o Museu Nacional do Mar, desde o transeunte despretensioso até o ávido e interessado visitante que quer agregar à sua bagagem cultural e, porque não, espiritual.

         Nossa família parabeniza a iniciativa, dedicação e organização do evento na pessoa da Marina Bruschi, agradecendo a oportunidade ímpar de conhecer Isabella Nicolas, importante sistematizadora da história da Vela no Brasil e incentivadora de tão nobre filosofia de vida.


         Bons ventos desde a Babitonga e até a próxima postagem!




terça-feira, 17 de março de 2015

A primeira regata a gente nunca esquece!

         Semana passada, mandei mensagem ao Wagner perguntando se ainda estava de pé o convite feito anteriormente por ele e sua Almiranta, a Neusa, para conhecermos o Leva Vento, um MOD 40 recém-adquirido e cuidado a “pão de ló” pelo antigo proprietário. Respondeu positiva e entusiasticamente como quem quer mostrar o filho recém-adotado. Embarcamos, eu e Luciane, para conhecermos o Leva Vento. Luciane e Neusa não se conheciam e esta foi uma ótima oportunidade.


         Wagner Meiga é o nome do Comandante do Leva Vento. Temos um laço de amizade com ele desde o lançamento do Hoje!, quando o Luciano Saraiva, hoje professor de Vela do JIC (Joinville Iate Clube), convocou-o para ajudá-lo no delivery do Capri até o Museu Nacional do Mar. Essa história eu já contei aqui no blog e para conhecê-la ou revê-la clique aqui. Wagner é natural de São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. É piloto e confidenciou-me que teve a oportunidade de trabalhar em regiões rurais para exercer uma de suas paixões, a aviação, porém, a paixão pelo Mar falou mais alto e não conseguiu ficar distante por muito tempo. Exímio praticante de Kite e Wind Surf, depois que veio morar em São Francisco do Sul, não mais voltou e sua paixão pelo Mar só se intensificou. Introvertido por natureza, quando se solta, expele pérolas humorísticas bem ao seu tom.

         Na outra semana, Wagner nos envia mensagem convidando para a regata organizada pelo JIC e a Flotilha Norte Catarinense de Veleiros de Oceano, a FNCVO. Empolgados, aguardávamos ansiosamente a participação em nossa primeira regata.

Para fazer parte da tripulação ele convidou a Marina Brushi, personagem que já figurou nesse blog, quando precisamos de ajuda num dia de sufoco em que o Hoje! “fugiu” da poita. Caso não conheça essa história ou queira relembrá-la clique aqui. A Marina hoje é Coordenadora do Museu Nacional do Mar. Devolve toda sua devoção ao Mar e barcos se dedicando ao árduo trabalho de fazer o Museu sobreviver com recursos esparsos. Tarefa árdua, pois todos sabemos, em nosso país, a educação é algo relegado ao supérfluo e cultura, principal e infelizmente, a náutica; dessa maneira, é tida como um artigo de luxo. Sempre é convidada para tripular diversos barcos, pois endossa sua experiência e muito boa vontade, resultado de várias travessias pela costa brasileira e também por várias regatas que correu em diversos lugares.

Sábado, 14.03.2015. Às dez horas chegávamos ao Museu Nacional do Mar, local onde fica apoitado o Leva Vento. De acordo com a previsão os ventos viriam do quadrante leste, a princípio, de intensidade irrisória, fato que se confirmou. Saímos a motor por dois motivos: falta de vento e para chegar a tempo da largada, que seria em frente à entrada do Capri às 12 horas.


Partida do Museu Nacional do Mar


Içando a Mestra através de sua respectiva adriça e catraca


Bate papo com a tripulação do Azzurro antes da largada


Luciane feliz da vida em sua primeira regata


Luciane e Marina na expectativa da largada


Veleiros Azzurro (Skipper 21) e Kraken (Skipper 30) se preparando para a largada

Para não queimarmos a largada, tivemos que dar um jaibe, o que nos deixou de popa para a saída. A nosso bombordo tínhamos o veleiro Catarina que pela regra de regata nos pediu “água”, ou seja, tinha direito de passagem, o que nos fez ficar entre eles e o barco da CR (Comissão de Regata) a boreste, fomos então obrigados a utilizar o motor para não abalroá-los; procedimento aceito dentro do regulamento, visto que tem como objetivo assegurar a integridade das embarcações e tripulações (Vide súmula com o resultado final no rodapé desta postagem).

Depois do apito de partida, de acordo com a regra, ainda temos 20 minutos para cruzar a linha e iniciar o trajeto de regata. O vento mirrado não nos ajudava; o Leva Vento é um portentoso e elegante barco de 40 pés e devido ao seu peso, proporcional ao seu tamanho, não se desloca com qualquer brisa. Temíamos não largar e então a frustação não poderia ser escondida. Com paciência, atributo digno de todo velejador que se preze, aguardamos o momento certo. Efetuamos o jaibe e então iniciamos nosso deslocamento, cruzando a linha de partida e rumando em direção à barra da baía Babitonga. Como o vento vinha praticamente “na cara”, e barco à vela não velejam de cara para o vento, fizemos os costumeiros, trabalhosos, mas também, prazerosos, bordos. Ziguezagueando e costurando o canal da baía, ora colocando a proa na praia de Itapoá, chegando bem perto dos pesqueiros, ora aproando até a praia do Capri, local pouco povoado, devido à área preservada.

Sentimos, através das cambadas, que o Leva Vento, por sua característica de barco de cruzeiro, orça e aderna suavemente, oferecendo muito conforto aos seus tripulantes; um legítimo “cruza-mares”, mas, sem perder em desempenho, o que é uma surpresa agradabilíssima.

Nossa abordagem à barra foi morosa devida à largada atrapalhada, dessa maneira desgarramos dos outros veleiros e, segundo o Comandante Wagner, não fosse isso, estaríamos muito próximos, ou até na retaguarda deles.

Como ninguém de nós é profissional, a coisa toda só pôde ser encarada, senão, como uma brincadeira de gente grande, e o resultado, do começo ao fim, foi muita diversão. Os ventos nos foram mais favoráveis, aumentando um pouco de intensidade, variando entre 10 e 12 nós. Éolo, quem sabe, sendo menos rigoroso nos concedeu o prazer de uma aprendizagem tranquila e sem solavancos.

Tão logo nos aproximamos do Arquipélago das Graças, fizemos a abordagem da Ilha dos Veados até muito próximos dela, quando cambamos a bombordo, contornando-a. Iniciamos a volta das ilhas, fato inédito para eu e Luciane, e podemos observar o visual inóspito da Ilha da Paz, onde se localiza o Farol, pela visão de quem vem pelo mar; grande experiência! Como bem explicitado pelo Comandante, a vegetação daquele lado da ilha é baixa devida à incidência do vento sul, que sopra com intensidade e rigor.

Contornamos o arquipélago usando todas as posições possíveis nas velas (mareações), até, finalmente, adentrar a baía novamente, com o vento em popa; em asa de pombo.

Perto da chegada, meio que por castigo, com a correnteza contra, ultrapassamos o veleiro Catarina, do mesmo comandante que havia nos pedido “água”, não aliviando nossa largada, o que nos atrapalhou um pouco. Com muito bom humor, afinal, tudo é uma confraria de colegas, brincamos que não chegaríamos por último. O barco da comissão de regata aguardava na linha de chegada e apitou sinalizando o término de nossa participação. Permanecemos nesse rumo, em asa de pombo, até a chegada ao Museu e radiantes nos aproximamos da poita do Leva Vento. Chegando ao Museu, alguns colegas de outros veleiros, vindos do JIC, mas não participantes da regata, ali se encontravam e nos cumprimentamos e conversamos sobre o dia bonito, ou qualquer coisa que enfatize a vida à vela que nos causa grande prazer, como é de costume entre velejadores. Para comemorar, Marina trouxe cervejas Itaipava, e, inevitavelmente, lembrei que os colegas velejadores e blogueiros paulistas apreciam muito a bebida. Estupidamente geladas, devido a geladeira eficientíssima do Comandante, degustamos e celebramos a regata, à nossa amizade e à vida!

Agradecemos a oportunidade, companhia e experiência concedidas pelo Wagner e Marina e aguardamos com agradável ansiedade a próxima regata.

É com esses ventos favoráveis que nos despedimos embarcando cada vez mais na vida náutica, coisa que é de um valor imensurável, e se tiver dúvida, tente também, tenho certeza; isso poderá mudar sua vida irreversivelmente.


Grande abraço da nossa família à sua, bons ventos e mares desde a Babitonga!


Comandante do veleiro Catarina (Ranger 22) pedindo“água”


Emparelhados, prontos para o apito de partida


Marina feliz depois de ajustar a Genoa num bordo


Num bordo, rumando até a praia de Itapoá, lado esquerdo do baía Babitonga para quem está saindo


Comandante Wagner tocando seu barco e curtindo a velejada


Popa do Leva Vento e sua esteira


Muita água depois do trabalho nas catracas


Ao largo nossos oponentes aproximavam-se do arquipélago das Graças


Abordagem à Ilha dos Veados


Visão de quem vem pelo mar da Ilha da Paz e seu Farol


Farol da Ilha da Paz visto do mar


Nenhum veleiro ancorado na Ilha da Paz, é dia de Regata!


Comandante Wagner brincando com a tripulação do Catarina


Veleiro Catarina e seu bonito balão pela nossa esteira


Catarina visto por nossa popa


O belo MOD 40, motivo de orgulho do Comandante Wagner


Posando na volta ao Museu do Mar, radiantes depois da experiência da regata através do Leva Vento


Registro do anoitecer embarcado no Leva Vento




Resultado oficial da regata