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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Navegando e aprendendo

         A latitude é de 2º ao sul em relação a linha imaginária do Equador, longitude 44º a oeste da linha imaginária que tem a cidade de Greenwich, na Inglaterra, como parâmetro.

         A convite do Fernando Previdi, voei de Joinville, maior cidade do estado de Santa Catarina, que fica ao lado da ilha de São Francisco do Sul, até essa outra ilha chamada São Luís, maior cidade e capital do estado do Maranhão.

         Nesse exato momento estamos eu, Fernando Previdi, Comandante Glauco Vaz e o pessoal do estaleiro provisionando o Guina, um portentoso e imponente catamarã de 47 pés, construído aqui em São Luís. A capital do estado do Maranhão tem essa fama entre os amantes da navegação muito provavelmente devido a uma característica peculiar da região: a amplitude de maré pode chegar a 8 metros. Para a navegação amadora isso se torna um problema, pois nos locais mais abrigados e menos profundos as embarcações hora estão flutuando com a maré alta, hora estão no seco. A maioria dos veleiros oceânicos são mono cascos com quilha fixa. Esses barcos sofrem um bocado aqui, a cada maré seca inclinam (adernam) e assim permanecem até a maré subir novamente normalizando a situação. Teoricamente, e a longo prazo,  isso pode causar algum dano ao barco, por esse motivo, os amantes da navegação que aqui residem acabaram resolvendo o problema optando por catamarãs e os estaleiros adaptaram-se a esse mercado resultando na fama justificada.



         O objetivo é claro: descermos com o Guina até o litoral de São Paulo.

         Faremos várias pernas para a conclusão do delivery, são elas:

São Luís/MAFortaleza/CE
Fortaleza/CERecife/PE
Recife/PESalvador/BA
Salvador/BAVitória/ES
Vitória/ESAngra/Paraty/RJ/Ilhabela/SP

A Almiranta gostaria muito de participar dessa empreitada mas, minha sogra não pôde ficar cuidando das crianças e então Luciane embarcará nas últimas pernas. Estarei ausente na data do aniversário dela e na de aniversário de nosso namoro e mesmo com saudades um do outro e das crianças, não vamos pestanejar, a hora é essa, o Mar nos chama, a aula vai começar!

Narrarei através de relatos e fotos essa jornada pela costa brasileira e agradecemos de antemão ao Fernando e família pelo privilégio em compor a tripulação da viagem inaugural do Guina.


Abraços desde a baía de São Marcos!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Muita história pra contar e uma lição de vida

            Semana que passou, Cesar ao telefone comigo:

̶  Há um veleiro um pouco menor que o de vocês do outro lado do trapiche, e exibe uma bandeira da Argentina.

            Então a curiosidade começou a funcionar e quis logo conhecer essa pessoa que veio de tão longe num barco que, aparentemente, foi feito para passeios de final de semana numa baía ou represa.

            Tão logo cheguei ao Capri, na casa de Cesar, juntamos as ferramentas básicas para finalizar um pequeno reparo em nosso carburador. Cesar o desmontou e limpou inteiro, coisa que ainda não havíamos feito. Aproveitamos para instalá-lo novamente e quem sabe conhecer essa pessoa que nos causava enorme curiosidade. Tão logo acessamos o flutuante, onde um barquinho com o costado laranja fazia companhia ao Hoje!, sai lá de dentro um simpático senhor, de cabelos e barba branca muito bem feitos, nos cumprimentando. Muito educado, nos perguntou se havia problema em deixar seu barco fundeado ali, receando utilizar o flutuante sem autorização. O flutuante foi feito por outro senhor bonachão, o Pacheco, que nos orientou a atracar ali quando viu que tivemos problemas com nossas poitas. Nos apresentamos mutuamente e logo saciamos nossa curiosidade, como crianças e seus brinquedos.


            Sr. Vitor nos relatou que veio da Argentina, Buenos Aires, e subiu até Angra dos Reis com seu valente barquinho e agora estava retornando. Na vinda, fez uma perna de 13 dias de La Paloma (UY) até Florianópolis, pegando todo tipo de vento, mas nenhuma tempestade, reclamando somente de algumas calmarias, fato esse que se resolve fechando o barco e dormindo, segundo ele. Essa é a terceira vez que sobe o litoral brasileiro embarcado num veleiro, mas a primeira solo em seu barco. Nas outras experiências veio em barcos maiores tripulados, numa delas conheceu Fernando de Noronha.


            O barco é um Van de Stadt 21 pés, modelo Trotter Pandora e foi batizado de Marangatu por ser o nome do primeiro veleiro que tripulou quando adolescente nas águas do Rio da Prata em San Isidro. Marangatu significa boa pessoa em guarani, coisa que ficou sabendo muito tempo depois. Tudo começou em sua adolescência, quando dentre várias atividades náuticas oferecidas pelo colégio, escolheu a vela. Disputava regatas interclasses e foi aí que a paixão cresceu e se desenvolveu. Mais tarde participou de várias regatas cruzando o Rio da Prata com destino ao Uruguai. Naquela época participava-se para sentir o mar, o rio, o vento, etc. O mesmo barco para essas regatas era usado para o passeio com a família. Hoje compra-se um barco feito especificamente para regatas e elas são competitivas, perdeu-se o prazer do cruzeiro despretensioso, o objetivo é vencer. Antes, o importante era participar, não chegar antes; desfrutar dos elementos, não concentrar-se excessivamente na vitória.


Cesar e Victor trocando figurinhas, dois experientes velejadores costeiros.

            Tão logo a janela de tempo foi aberta, Victor, o intrépido velejador, estava pronto para partir em direção à Armação de Itapocorói, Penha (SC). Tivemos um último bate papo descontraído na casa de Cesar.





O último aceno do intrépido velejador

            Gozando de plena saúde, no auge de seus 73 anos, Victor é uma prova viva de que os sonhos são feitos para serem vividos. Partiu em direção à ilha da Paz no final da tarde aproveitando a maré vazante, desta vez, só utilizou o pequeno motorzinho de popa de míseros 5 cavalos. Pernoitaria lá a fim de seguir viagem bem cedo no outro dia.


Registro da chegada atrás da Ilha da Paz e a dimensão de sua casquinha de noz diante do oceano e o Farol.

            É com essa história de vida que finalizo essa postagem demonstrando que os bons exemplos nos movem, basta encontrá-los!

            Bons ventos e abraços desde a Babitonga!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

1ª Velejada em Família!


            Tempo estável, vento leste com intensidade perfeita; 12 a 15 nós. O mar, devido a estabilidade do vento lá fora (mar aberto), parecia um tapete. Tudo conspirava, ao que, de fato, foi uma bela velejada. Esse cenário perfeito nos convidava, digo, impelia a navegar. A natureza dá as cartas, cabe a nós entender e aceitar as regras de seu jogo deslumbrante.
            Tão logo terminamos a manutenção do motor do Hoje! não havia mais nada que nos prendesse em terra. A partir de agora podemos navegar com segurança, pois todos os requisitos básicos para uma saída sem perrengues foram devidamente supridos, restando apenas ajustes finos que realizaremos aos poucos, aqui e acolá.
            Figura chave em nossa jornada pelo mar, Cesar, nos auxiliou em nossa primeira velejada em família. O barco chegara ao mês de março e desde então fomos efetuando acertos para relançá-lo. Nosso barquinho ficava observando o mar de cima da carreta de encalhe no pátio do ICSC (Iate Clube Veleiros da Ilha). Que angústia devia ser pra ele observar o elemento para o qual foi projetado, ali, bem diante de sua proa, maré sobe e desce, ele no seco. Bem cuidado, limpo, mas triste; sem poder navegar.
            A Luciane havia velejado quando o Christian Franzen do Armazém Naval e o antigo dono do barco, André, nos levaram pela baía norte de Florianópolis para nos mostrar como o barquinho se comportava. Desde então não tivemos mais a oportunidade de velejarmos juntos, em família. Com o barco pronto, era hora de reunir a família e celebrar a vida.
            Como de praxe utilizamos nosso motorzinho para safarmos do cais, e, antes do que imaginei, Cesar o desligou. Barco aproado ao vento, iniciam-se as manobras. As velas inflam e tomam forma. O vento protagoniza, sentimos então aquela paz característica, que só um barco a vela nos causa.










            O Victor choramingou um pouquinho depois que exigimos que vestisse o colete salva-vidas; medida preventiva. A Lelê também desfrutou da condução do barco, adora velejar. Os dois já fizeram aulas em Optimists, isso ajudou na compreensão de como a coisa funciona e acendeu a centelha da paixão pela Vela. Vivem perguntando quando vamos velejar novamente.

            Cesar, muito paciencioso, aguentou a trupe e até meditou na plataforma de popa demonstrando sua inquebrantável calma.

             Na volta, través folgado, dessa vez amuras a boreste, rumamos costeando a praia do Forte, Farol do Sumidouro e finalmente praia do Capri, em direção ao nosso canal do Iriri.

            Dentro do canal com a maré vazando contra e o vento “na cara”, mas com o espírito de velejadores, chegamos na vela, fazendo vários bordos, em zigue-zague até nosso porto. Um pouco penoso, porém emocionante. Para velejador, usar motor é heresia, só em casos extremos e necessários, afinal o barco não foi projetado para isso. Chegamos à vela, “esquecemos” de ligar o motor!


            E, para fechar com chave d’ouro, ainda encontramos com o Silvio no desembarque. Ele, como sempre, tranquilo, final de tarde, havia voltado de seu trabalho; pesca de camarão. Silvio é nosso vizinho de cais, nos contou que tem casa no bairro do Paulas, refúgio tradicional dos pescadores daqui, e prefere morar em seu barco, é seu estilo de vida. Tão logo atracamos, o cumprimentei e fui logo perguntando: “Tem camarão Silvio?” Resposta positiva, arrematamos os últimos três quilos. Veio nos trazer o pedido no seu caíque de apoio e nos fez uma surpresa devolvendo uma de nossas defensas que achávamos ter perdido. Gratidão profunda a essas pessoas que sem obrigação nenhuma zelam por nossas coisas.


            Com mais esse capítulo da nossa história devidamente documentado, nos despedimos com alegria e gratidão profundas desejando um Feliz Natal. Nos encontramos na próxima ancoragem, Bons Ventos!


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Museu Nacional do Mar


        Já contamos um pouco de nossa história na postagem inaugural, "Como tudo começou..." Contarei agora como nos interessamos por navegação, em especial, à vela.

            Logo que chegamos a São Francisco do Sul começamos a frequentar o Sarau Lítero-Musical do Museu Nacional do Mar. Espaço cultural importante para a cidade. Embora tenha uma população pequena, aproximadamente 50.000 habitantes, proporcionalmente, têm uma vida cultural interessante, historicamente tradicional.

            Sou músico desde os 12 anos, quando aprendi as primeiras notas em um violão abandonado na casa dos avós. Minha experiência com aulas particulares de música em Curitiba propiciou o privilégio de poder fazer parte do Projeto Música no Museu do Mar. Nos dias chuvosos, tinha a “sorte” dos alunos de uma pequena turma, faltarem. Aproveitava a brecha e perambulava com bastante calma pelas salas do Museu absorvendo tudo o que encontrava. Observava estupefato, como homens faziam-se ao mar com diferentes embarcações, cada qual, com características peculiares devido ao local e condições que encontravam. Dada nossa geografia, temos desenhos, projetos e maneiras muito diferentes na construção das embarcações. Em alguns pontos do nordeste do Brasil os pescadores ainda utilizam barcos à vela. A revolução industrial ainda não se fez completamente presente nesses lugares e isso traz consigo um impacto ambiental muito menor comparado aos lugares onde a pesca tornou-se industrial.

            O Museu Nacional do Mar tem uma sala dedicada ao Amyr Klink e um espaço, ao final, a Beto Pandiani e sua equipe. Essas duas figuras e suas façanhas me impressionaram muito. O Amyr é reconhecido internacionalmente como um dos maiores navegadores da história e sua biografia deve ser conhecida. Beto Pandiani e Cia. já dobraram o Cabo Horn, o mais temido do planeta, em dois catamarãs Hobby Cat.





            São histórias muito impressionantes para passarem ilesas por nossa consciência. Não há quem não mude a maneira como enxerga as coisas depois que tem contato com essas façanhas. Depois desses mergulhos, emergiam perguntas que se não devidamente respondidas, incomodavam. Com todo esse mar ao nosso redor o que estamos fazendo em terra ainda? Com essa baía Babitonga maravilhosa vocês vão se contentar em ficar olhando? Como podemos aproveitar melhor esse tesouro ofertado de graça? E outras mais...

            Esse é o poder de um Museu. Pode fazer você enxergar com outros olhos uma coisa que sempre esteve ali, o tempo todo. Uma maneira indireta de repassar o conhecimento e dedicação que homens tiveram com aquela temática, no nosso caso, o Mar. Geralmente os Museus abordam assuntos e temáticas que só acrescentam em nossas vidas, lá dentro, não incutiram-me nenhuma necessidade falsa, fizeram-me reconhecer o verdadeiro valor que determinadas coisas têm que ter, dentre as quais, solidariedade, honestidade, simplicidade, respeito à natureza e outras mais que todo homem do mar tem em sua cartilha sem fazer alarde.
            Aqui você encontra uma maneira de fazer um passeio virtual pelo Museu Nacional do Mar, mas não se deixe enganar por nossas novas tecnologias, a visita presencial ainda é obrigatória e não se surpreenda se achar o Museu um pouco rústico, com o seu conteúdo ninguém precisa plantar bananeira ou sortear um carro novo para que você se interesse, e, se conseguir captar a mensagem, já terá valido a pena.

            Bons ventos desde a Babitonga!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Velejada Noturna

                Essa é a segunda parte da postagem anterior Passeio, Aventura & Emoção, caso esteja lendo aqui primeiro, comece lá.

            Depois de deixar Fabiane e Esli no Centro Histórico, flutuante do restaurante Portela, zarpamos, eu e Saraiva, rumo ao Capri, não podíamos perder tempo. Tanque cheio, retornaríamos com folga.

            2013-11-15 ► 17h30min. Era certa nossa chegada à noite. Zarpamos no motor, pois o vento e ondas ainda eram contrários, com sorte, amainaram um pouco, o que, facilitou a navegada e também a tornou mais confortável. O retorno, sem romantismo, não seria à vela.

            A noite caía devagar. Motor em aceleração moderada, funcionava perfeitamente. Estávamos na metade do caminho, com o porto de Itapoá no través de bombordo, e motor deu uma engasgada, coisa rápida; voltou ao normal. Entre olhamo-nos e, fingindo nada acontecer, continuamos. Mais alguns minutos e desligou completamente...

            Correria. Tiramos as velas do interior e iniciamos uma faina apressada. Em pouco tempo, derivaríamos. No través de boreste um enorme banco de areia e logo, se nossos procedimentos não fossem feitos com exatidão, o conheceríamos; encalharíamos. A esta hora, o sol, jazia. Abrimos a buja e tentamos encaixar o Hoje! no contra vento sem muito sucesso. Seria necessária a mestra devido ao vento ameno. Subimos a mestra e algumas rajadas nos impulsionaram, afastando o temor do encalhe na coroa. Como que por encomenda, Eolo, nos mandou algumas rajadas mais caprichadas. Por precaução, rizamos a mestra na primeira forra. Adernados, desenvolvemos maior velocidade. Em um bordo chegamos bem perto do porto de Itapoá, e assim sucedeu-se, com alguns bordos até alcançarmos a entrada do canal do Iriri, no Capri.


Porto de Itapoá visto de nosso barquinho adernado


Eu e Saraiva vivenciando a primeira velejada noturna

            Saraiva, habilidosamente, fez a entrada no canal passando bem ao centro, distante das bóias, que não são iluminadas. Uma vez lá dentro desviamos de alguns barcos de pesca ziguezagueando entre eles. Os pescadores disparavam flashes de suas lanternas sinalizando sua posição para demonstrarem sua presença. Quando passávamos por eles, davam “gritinhos” como que cumprimentando e comemorando as manobras. Assim, contra o vento, de bordo em bordo, fomos chegando ao flutuante do Hoje!, mais ao fundo. Quando do último bordo, com o vento fraco, encalhamos. Ainda tentamos fazer um contra bordo, mas seria inútil.

            Estávamos cansados, não havia ninguém por perto para auxiliar. O flutuante ficava há algumas braçadas. Saraiva preparava-se para nadar até uma bateira próxima, quando ouvimos pelo rádio o pessoal do Capri Iate Clube conversando entre si. O rádio! Esquecêramos de usar o rádio do barco! Contato feito, Donato, marinheiro do clube, encosta em nossa popa. Que mão na roda... digo, vela! Fez nosso embarque providencial no flutuante. Agradecemos. Despedi-me do Saraiva e voltei com pressa para casa, preocupado com a Luciane e as crianças, que já sabiam de tudo, pois acompanhavam a aventura via celular. No outro dia voltaríamos para recolocar o Hoje! em seu lugarzinho.

            Obrigado a Fabiane e Esli, ao Saraiva pela aventura, à Luciane, novamente pacienciosa e às pessoas coadjuvantes na história,  sem as quais, nada disso seria possível.

            Sinto que toda vez que saio para o mar em nosso barquinho, aperto o botão de turbo na aprendizagem da vida. Incrível quantas coisas são possíveis de vivenciar e aprender num barco à vela. Tudo está acontecendo muito rápido e pude, muito antes do que imaginei, velejar à noite. Experiência ímpar! Um misto de mistério, emoção e paz.

            É com esses sentimentos que me despeço, almejando a você bons ventos e que atraque a um porto seguro depois de uma velejada vitoriosa!


            Abraços desde a Babitonga.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Passeio, Aventura e Emoção!

            Semana que passou foi de muita correria, não é pra menos, estamos às vésperas da alta temporada e para quem ainda não sabe, nossa família trabalha com turismo numa pousada.

2013-11-15 ► Quinze de novembro, proclamação da república, feriado nacional.

Pousada lotada. Enquanto eu e Luciane ainda servíamos o café da manhã recebo uma chamada perguntando sobre o passeio no Hoje! Eram Fabiane e Esli, um casal de turistas paulistanos. Dei algumas opções de passeios e eles optaram pelo avistamento dos botos cinza. Às onze horas estávamos reunidos eu, Saraiva e o casal, em frente ao canal do Iriri, nos preparando para embarcar. Depois de um rápido briefing, descobrimos que nunca haviam velejado e ansiavam por essa nova experiência. Embarcados, iniciamos, eu e Saraiva, as fainas preparativas para a partida. Fabiane e Esli exploram o veleiro e surpreendem-se com o interior. Aguardam, ali dentro, nossos procedimentos. Como sabíamos ser a primeira experiência deles na Vela, havíamos preparado a Mestra para usá-la o mais cedo possível, utilizando o motor somente para nos safar do flutuante. Desligado o motor, regulamos a escota da vela mestra para que o vento nordeste empurrasse-nos, de alheta, até o meio do canal. Estávamos velejando.


Fabiane e Esli observam fascinados como o barco se desloca através da vela


Pose para foto na entrada da baía Babitonga


Saraiva extasiado com o dia bonito e o vento perfeito


Barco adernado, contra vento, só com a mestra

Encaminhamo-nos à baía através do canal. O vento soprava conforme a previsão, entre 12 e 15 nós, 18 nas rajadas, vindos do quadrante nordeste. A saída do canal fica também a nordeste. Fizemos um jaibe a bombordo, pois nosso rumo deveria ser oeste, ou seja, o fundo da baía, lar dos botos. O vento nos levaria pela popa, então abrimos a buja para seguir em asa de pombo. É possível avistar os botos em dois lugares, em frente ao centro histórico ou perto da Ilha das Flores. O centro histórico seria o primeiro destino, pela proximidade, depois, as ilhas. As rajadas, cada vez mais fortes, nos impulsionavam com força e relativa rapidez.  Chegamos ao Centro Histórico em pouco mais de uma hora desde a saída. Os bichos não estavam por ali e não havia nenhum indicativo de onde poderiam estar. Decidimos rumar para as ilhas, mais ao fundo, na mesma toada.


Tempo começando a mudar, logo passaria o leme ao Saraiva

O tempo começou a mudar. Aquele céu de brigadeiro que testemunhamos era passado. Nuvens esquisitas encenavam uma peça teatral dramática. Segundo a previsão, não haveria chuva durante o dia, e assim foi, felizmente. As rajadas subiram para uns 25 nós e as ondas já estavam com um metro e meio. Armados em asa de pombo, recebendo toda essa carga pela popa, surfávamos! Registrávamos no GPS até 7 nós na descida da onda. Saraiva, surfista desde a adolescência, estava “em casa”. Perguntava, seguidamente, ao casal se tudo andava bem e a resposta era sempre positiva. Nos primeiros contatos, através do telefone, recomendei a eles que fizessem uma refeição leve, pois podiam, eventualmente, enjoar.  Mas, pasmem, foi o marujo que vos escreve que comeu algo que não caiu bem. Acabei mareando! Os navegantes têm um ditado que diz “alimentar os peixes” e ele foi bem lembrado pelo Saraiva nessa hora. Nesse pouco tempo velejando, foi a primeira refeição que servi aos nossos amigos písceos.

E nossos “queridos” cetáceos? Onde estavam aquelas criaturinhas lindas que me deixaram na mão, me fazendo passar por loroteiro? Inteligentes são eles que no meio daquela bagunça toda deveriam estar num lugar bem abrigado fazendo festa com os visitantes da baía!

Não havia razão pra continuar e, obrigatoriamente, tínhamos que voltar, não haveria dia suficiente pra chegar ao Capri. Ligamos o motor e recolhemos os panos. Seguimos contra o vento e ondas, batendo um pouco, caturrando indefinidamente. Nessas horas, sente-se um pouco de segurança saber que temos o motor como recurso pra poder retornar a um porto. Avançávamos lentamente, pois estávamos brigando com os elementos, não mais a favor deles. Verificamos a quantidade de combustível e deduzimos não ser suficiente para retornar ao Capri. Aportaríamos no Centro Histórico, único recurso. Chegada tranquila, atracamos com facilidade, ali, devido aos morros, o vento e ondas eram bem amenos.

Desconectei a mangueira do tanque e o retirei, é portátil. Saí pela cidade atrás de combustível. Feriado. Os dois postos que encontrei estavam fechados. Na volta do último e desesperançoso, passei por um senhor que estava chegando em casa. Pensei comigo: “Não gosto de fazer isso, mas não tenho saída!” Com tato e educação, apresentei-me e expliquei a situação. Sr. Roque, um gaúcho de Bento Gonçalves, não hesitou, levou-me até o posto que estivesse aberto, este, muito longe pra eu poder chegar a pé. Explicou-me que no passado amigo fazia favor sem esperar nada em troca e que iria me ajudar por que um dia também vai encontrar uma alma boa em seu caminho quando precisar. Não tenha dúvida, Sr. Roque, não tenha dúvida! Agradeci profundamente e nos abraçamos como amigos que não se viam há anos.

Com o tanque cheio poderíamos voltar. Fabiane, Esli e Saraiva aguardavam meu retorno no flutuante do Restaurante Portela. Fui franco com o casal, esclareci que nosso retorno seria tardio, sem hora pra chegar e recomendei a eles que retornassem por terra. Eles avaliaram e consentiram. Pedi desculpas pelo fato dos botos não aparecerem, afinal de contas, o erro foi meu. Para a primeira velejada eles pegaram uma “pauleira” e espero que ainda assim tenham gostado e queiram continuar desfrutando da vela.

Saraiva sugeriu que deixássemos o Hoje! fundeado no Museu Nacional do Mar, pois apresentávamos sinais de cansaço. Argumentei que o trabalho para retornar com o barco, noutro dia, seria bem maior. Então engajamo-nos nas fainas de bordo e zarparíamos rumo ao Capri.

Continua na próxima postagem...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Preparativos

“Quem vai ao mar, avia-se em terra.” Provérbio português

Há um tempo que não escrevo no blog e com a “cobrança” dos colegas marinheiros, Ricardo Stark e Juca Andrade, não pude deixar passar. Esse tempo que passou desde a primeira velejada solo foi de muito aprendizado. Quando chegamos com o Hoje! por terra no balneário do Capri tivemos o prazer de conhecer um senhor chamado Cesar. Sabe aquelas pessoas que tem um sonho (e dos grandes) e começa a colocar em prática mesmo sabendo de todas as dificuldades e perrengues? Mesmo sabendo que poderão chamá-lo de louco (e chamam) e assim mesmo mantém sua fé inabalável? Poderia me alongar em adjetivos, mas, um só resume: personalidade. Já confidenciei ao Cesar que ele lembra o meu avô pelo caráter mas, é jovem, e a comparação termina por aqui. Ele merece uma postagem só com sua história, e, no momento adequado, ela nascerá.


Nosso barquinho atracado ao flutuante

Durante essa lacuna cronológica estivemos empenhados, Cesar e eu, na manutenção do pequeno Volvo Penta de 7,5 cv de centro. Na verdade é um Honda de rabeta, marinizado pela Volvo. É um motorzinho interessante e muito bem construído, segundo o Cesar, profundo conhecedor de mecânica, disse só não ser perfeito por que não é a diesel. Com uma paciência e experiência que eu nunca havia presenciado antes, ele foi descobrindo os meandros e facetas do motorzinho e explicando-me como o mesmo funciona, absorvi de acordo com minha bagagem, que não é muita. Algum conhecimento sobre mecânica tenho, resquício de uma adolescência vivida numa cidade grande, onde tudo gira em torno de automóveis.

O trabalho no motor findou. A partida, que é manual, idem ao de um motor de rabeta, é feita com facilidade. Está girando bonito, até o som mudou. A bomba de combustível, que originalmente era mecânica, foi substituída por outra elétrica. O principal é que agora ele está refrigerando, ou seja, a água salgada entra, através dos dutos, e mantém a temperatura adequada. A parte elétrica do motor foi inteiramente revisada e a bateria, desta forma é carregada, toda vez que o motor está funcionando.


Desenho do motor de centro

Como essa parte estava praticamente revisada, saímos, ali mesmo, no canal do Iriri, para uma velejada curtinha para um teste. Tão logo desatracamos, Cesar desligou o motor. Fiquei curioso, mas é assim mesmo, ele é daqueles velejadores que só usam o motor quando não há outra alternativa. Pensei que chegaríamos ao meio do canal com o motor e depois içaríamos as velas. O vento estava nos empurrando contra o flutuante onde o Hoje! estava atracado, então Cesar utilizou o motor para nos livrar dele, e então já o desligou. Fiquei apavorado, pois ao nosso lado, em outro flutuante, estava atracado um iate, e o vento, que não era ameno, nos empurraria em direção a ele. Quase que como mágica, Cesar domou o barquinho e nos safou habilidosamente. Demonstrou em alguns poucos minutos sua experiência, habilidade, e consequentemente, facilidade no trato do barco. Demos alguns bordos, pois o vento assim exigia. Conhecedor do lugar, chegávamos bem perto dos baixios e então cambávamos. Incrível como a experiência traz consigo a tranquilidade. Para nosso deleite, rajadas mais fortes e constantes começaram a entrar, estávamos voltando. Usávamos só a Buja (vela da frente). Com aquelas rajadas ganhamos um pouco mais de velocidade, durante esse retorno, Cesar me explicava que a vela precisava ser esticada não só lateralmente, mas também para baixo, e mostrava-me isso tensionando-a nessa direção. Isso aumentava o desempenho do barquinho (mais uma coisa que deveremos adaptar). Para minha surpresa e empolgação, chegaríamos no flutuante à vela, sim, é isso mesmo, para quê motor? (risos) Engraçado como coisas tão simples nos empolgam tanto. Entre ter uma ideia e poder colocá-la em prática é um caminho longo, e isso, estava vivenciando ali.

Em nossa sociedade, atualmente, dada nossa cultura equivocada, estamos perdendo o hábito de reverenciar os mais maduros e experientes. Acreditamos, incautos, que esses não têm nada a nos ensinar. Um desperdício! E pasmem, eles estão lá pra nos ensinar, contam com gosto sobre todas as aventuras que tiveram, basta pararmos pra ouvir, é simples. Cabe aqui, nossa demonstração de gratidão profunda ao Cesar, que nos ajuda, nos cobrando apenas dedicação, doando sua experiência, tempo e paciência. Posso afirmar com certeza que a vida por aqui seria bem mais difícil sem sua ajuda, meu amigo, obrigado!

Estamos revisando as velas. A buja, provavelmente, será trocada por uma Genoa 150%, e vamos fazer um exame na Mestra. Quiçá o Hoje! ganhará um novo jogo de velas, não é pra menos, coitado, desde que nasceu não sabe o que são velas novas, essas que estão nele são da velaria Pelicano, extinta há algum tempo.

Assim vamos nos despedindo. Esses dias encontrei com o Paulo Reis e ele confidenciou que nossa história é bem inspiradora e que é bom saber que alguém está fazendo isso por aqui. Obrigado pelas palavras Paulo, isso nos impulsiona!

Tenham todos bons ventos para poderem alcançar o porto que estão almejando. Abraços da família Ville Floriani, até a próxima!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Primeira velejada solo

O barco estava lá, na poita, pronto. Minha experiência ainda pífia, mas, a vontade, grande. Numa conversa entre nossa família e o Fabrício [Delphin 28 denominado Meraki], nosso vizinho de poita, tivemos a ideia de velejarmos os dois, em flotilha, cada um em seu barco.


Dias antes quando o Fabrício chegava de sua velejada solo.

Infelizmente o Fabrício, ocupado com sua mudança, não pode velejar nessa semana e não havia previsão para tal pois viajaria na outra. E aquela ideia ali, fervilhando. Se não agora, quando? Para tornar a primeira velejada solo uma realidade tive que ser honesto comigo mesmo. O plano era velejar pelo canal do Iriri até a entrada do Iate Clube do Capri e voltar até a poita. Uma meta realista, pequena, só pra poder sentir como é velejar por minha conta e risco, podendo cometer algum erro [como veremos adiante] sem nenhum prejuízo de qualquer natureza. Havia um risco, porém calculado.

         Luciane e Victor vieram comigo para prestar auxílio por terra, caso necessário.


Victor, sempre solícito, ajudou a colocar a bateira nágua

         Bateira nágua, como de praxe, chego remando até o Hoje! Lá, inicio um teste no motor que tem partida manual. Terceira tentativa e ele está funcionando. A maré vazava, ou seja, me levaria na direção pretendida, logo não precisaria “motorar” para sair, era só seguir. Seguindo os conselhos do Sr. Cesar, um dos velejadores mais experientes do Capri, usaria somente a buja. Içei-a e a deixei panejando ao vento, para que o barco ainda amarrado à poita, não fosse impulsionado. Nessa hora um dilema tomou conta de minha cabeça, ir ou não ir? Todo tipo de desculpa pairando, mas minha razão sempre contra-argumentava. Esse dilema estava quase se tornando uma novela e o final podia ser um recuo. Mais seguro assim, não? A cabeça fervilhando e eu não prestava mais atenção naquele diálogo, sim, pareciam duas vozes; eu estava dividido. Nessa hora, de uma forma um pouco provocativa e também quase hilária, começa a tocar na minha caixola “Bohemiam Rhapsody” do Queen. É isso mesmo, não me pergunte por quê. Enquanto não soltasse as amarras não sossegaria. Quando então o fiz, o refrão dizia: “Oh mama mia, mama mia, Mama mia, let me go...” Soltei então, finalmente, as amarras dando risada, aquilo não poderia ser feito de outra forma, afinal de contas, não era uma parte do sonho se tornando realidade?

Pronto, estava velejando. A maré estava vazando e naturalmente me empurrando para fora do canal, além disso a vela buja também auxiliava potencializando essa força. A esteira do barco, que é o rastro que ele deixa nágua, era prova disso.



Saída pelo canal, maré vazante e buja aberta

Rapidamente me desloquei até a entrada do Iate Clube do Capri, lugar onde faria um jaibe para o retorno. Jaibe realizado com facilidade pois o vento era ameno, agora era voltar contra a corrente e amarrar o barco à poita. No meio daquela empolgação toda, a maré baixando repentinamente, lua cheia, maior amplitude de maré do ano, afrouxo na vigília das margens do canal e de repente, o encalhe! Ainda tentei escapar mas a natureza não perdoou. Quem sabe, se tivesse passado por ali trinta minutos antes nada ocorreria. Sr. Cesar também já tinha me contado de experiências com encalhes ali por perto e disse não haver problema algum, paciência, esperar a maré subir e ir embora! O problema é que havia encalhado na maré seca, 0.0 de acordo com a tábua das marés, pra que eu saísse dali com folga teria que esperar até o outro dia, 1.7 metros acima. Como não poderia atravessar o canal nadando, pois agora é inverno, pernoitaria no barco.

         Encalhei as 16 horas da terça, a maré cheia só aconteceria no outro dia naquele mesmo horário. Clima ameno, vestia bermuda, camiseta e tinha levado um moletom na mala, que fez toda a diferença no pernoite involuntário [como o colega Juca Andrade, uma vez citou em seu blog]. Estava descalço e a noite fez frio, algumas toalhas limpas e secas serviriam de cobertor. Sem comida, tinha uma garrafa de água mineral, o que foi suficiente. A noite começava a cair, então entrou pelo canal um pesqueiro de nome Vô Luiz. A Luciane, estava em terra e pediu auxílio para o Pepê, rapazinho que trabalha com Sr. Nestor. Ele conversou com o pessoal do pesqueiro que eram seus amigos. Então vejo o pesqueiro retornando e agora vindo em minha direção. Pessoal do Vô Luiz, um barco grande, estavam com um problema na caixa de câmbio e ficaram pela minha popa, à deriva, tentando engatar já com o cabo amarrado ao Hoje! Preocupados com o engate para seguirem avante se deixam levar pela maré, e, sem notar, acabam também indo para cima do baixio. Quando se deram conta era tarde, agora éramos dois. Eu não sabia onde enfiar a cara. Encalharam a uns 100 metros de mim, evitei conversar com eles com medo de ouvir um xingão. As quatro horas da manhã, a maré subiu um pouco, o necessário para o barco deles, sem quilha, flutuar novamente. Ligaram o motor e novamente batalhavam para poder engatar avante sem muito sucesso. Quando conseguiram, me explicaram que infelizmente não poderiam me ajudar, por motivo nítido. Entendi e agradeci. Ficaram de pedir ao pessoal do Clube que me auxiliassem.

O jeito era esperar. Minha espera não foi das piores. No meio da noite abria a gaiúta da cama de proa pra verificar se tudo corria bem e era agraciado com aquele céu limpo repleto de estrelas e uma lua cheia maravilhosa. Como bem disse a Letícia [nossa filha] para a Luciane:Você preocupada com o marujo e ele assistindo o luar de camarote! O fato do barco estar encalhado o deixava adernado e isso, causava um certo desconforto, mas tudo isso foi compensado pela experiência que tinha tido e a noite de luar que estava presenciando.

         De manhã, bem cedo, acordo com um barulho. Assustado, pulo do beliche de boreste e noto que eram, garrafa, copo e detergente líquido que haviam caído por conta da inclinação ainda maior do barco devido a maré seca.


A Luciane registrou o momento da maré seca

         Voltei a dormir, um pouco mais tarde, ouço o ronco de um motor de popa que aumentava. Encostaram no barco e me chamaram, era o pessoal do clube me perguntando se estava tudo bem e se eu queria retornar à terra. Aproveitei a carona, agradecemos, eu e a Luciane. O barco estava lá, havia jogado âncora [observe a foto], então decidi ir até em casa, tomar banho, comer algo e esperar até a maré encher. A tarde, a maré estava tão alta que o barco flutuava por cima do baixio. Pepê me auxiliou com a bateira do Fabrício, que é motorizada e levamos de volta o barquinho à poita. Barco amarrado à poita, agora respirava mais sossegado. Mais uma experiência no currículo náutico e bora aprender mais!

Agradeço as pessoas envolvidas que tornam nossas aventuras possíveis e seguras, a Luciane que sempre me apoia e agora está fazendo belas fotografias. Agradecimento especial ao Sr. Cesar que me encorajou e desmistifica, com seu conhecimento as coisas relacionadas a barcos e ao mar.


         Tenham todos bons ventos e ótimas velejadas, obrigado, e até a próxima!